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quarta-feira, 4 de março de 2009

3- Murray Bookchin - ECOLOGIA E PENSAMENTO REVOLUCIONÁRIO SÉRIE COMUNIDADES ANARQUISTAS


ECOLOGIA E PENSAMENTO REVOLUCIONÁRIO
Murray Bookchin

Uma das características da Ecologia é a de não estar perfeitamente contida no nome - cunhado por Haeckel, em 1866, para indicar a "investigação da totalidade das relações do animal tanto com seu ambiente inorgânico como orgânico". No entanto, concebida de maneira ampla, a Ecologia lida com o equilíbrio da natureza. Visto que a natureza inclui o homem, esta ciência trata da harmonização da natureza e do homem. Esta abordagem, mantida em todas as suas implicações, conduz às áreas do pensamento social anarquista. Em última análise, é impossível conseguir a harmonização do homem com a natureza sem criar uma comunidade que viva em equilíbrio permanente com o seu meio ambiente.

As questões com que a Ecologia lida são permanentes: não se pode ignorá-las sem pôr em risco a sobrevivência do homem e do próprio planeta. No entanto, hoje, a ação humana altera virtualmente todos os ciclos básicos da natureza e ameaça solapar a estabilidade ambiental em todo o mundo.

As sociedades modernas, como as dos Estados Unidos e Europa, organizam-se em torno de imensos cinturões urbanos, de uma agricultura altamente industrializada e, controlando tudo, um inchado, burocratizado e anônimo aparelho de estado. Se colocarmos todas as considerações de ordem moral de lado e examinarmos a estrutura física desta sociedade, o que nos impressionará são os incríveis problemas logísticos que ela deve resolver: transporte, densidade, suprimentos, organização política e econômica e outros. O peso que tal tipo de sociedade urbanizada e centralizada acarreta sobre qualquer área ambiental é enorme.

A noção de que o homem deve dominar a natureza vem diretamente da dominação do homem pelo homem. Esta tendência, antiga de séculos, encontra seu mais exacerbado desenvolvimento no capitalismo moderno. Assim como os homens, todos os aspectos da natureza são convertidos em bens, um recurso para ser manufaturado e negociado desenfreadamente.

Do ponto de vista de Ecologia, o homem está hiper-simplificando perigosamente o seu ambiente. O processo de simplificação do ambiente, levando ao aumento do seu caráter elementar - sintético sobre o natural, inorgânico sobre o orgânico - tem tanto uma dimensão física quanto cultural. A necessidade de manipular imensas populações urbanas, densamente concentradas, leva a um declínio nos padrões cívicos e sociais. Uma concepção massificadora das relações humanas tende a se impor sobre os conceitos mais individualizados do passado.

A mesma simplificação ocorre na agricultura moderna. O cultivo deve permitir um alto grau de mecanização - não para reduzir o trabalho estafante mas para aumentar a produtividade e maximizar os investimentos. O crescimento das plantas é controlado como em uma fábrica: preparo do solo, plantio e colheitas manipulados em escala maciça, muitas vezes inadequados à ecologia local. Grandes áreas são cultivadas com uma única espécie - uma forma de agricultura que facilita não só a mecanização mas também a infestação das pragas. Por fim, os agentes químicos são usados para eliminar as pragas e doenças das plantas, maximizando a exploração do solo.

Este processo de simplificação continua na divisão regional do trabalho. Os complexos ecossistemas regionais de um continente são submersos pela organização de nações inteiras em entidades economicamente especializadas (fornecedoras de matéria-prima, zonas industriais, centros de comércio).

O homem está desfazendo o trabalho orgânico da evolução. Substituindo as relações ecológicas complexas, das quais todas as formas avançadas de vida dependem, por relações mais elementares, o homem está regredindo a biosfera a um estágio que só é capaz de manter formas simples de vida, e incapaz de manter o próprio homem.

Até recentemente, as tentativas de resolver contradições criadas pela urbanização, centralização, crescimento burocrático e estatização eram vistas como contrárias ao progresso e até reacionárias. O anarquista era olhado como um visionário cheio de nostalgia de uma aldeia camponesa ou de uma comuna medieval. O desenvolvimento histórico, no entanto, tornou virtualmente sem sentido todas as objeções ao pensamento anarquista nos dias de hoje. Os conceitos anarquistas de uma comunidade equilibrada, de uma democracia direta e interpessoal, de uma tecnologia humanística e de uma sociedade descentralizada não são apenas desejáveis, eles constituem agora as pré-condições para a sobrevivência humana. O processo de desenvolvimento social tirou-os de uma dimensão ético-subjetiva para uma dimensão objetiva.

A essência da mensagem reconstrutiva da Ecologia pode ser resumida na palavra "diversidade". Na visão ecológica, o equilíbrio e a harmonia na natureza, na sociedade e, por inferência, no comportamento, é alcançado não pela padronização mecânica, mas pelo seu oposto, a diferenciação orgânica.

Vamos considerar o princípio ecológico da diversidade no que se ele aplica à biologia e à agricultura. Alguns estudos demonstram claramente que a estabilidade é uma função da variedade e da diversidade: se o ambiente é simplificado e a variabilidade de espécies animais e vegetais diminui, as flutuações nas populações tornam-se marcantes, tendem a se descontrolar e a alcançar as proporções de uma peste.

O ambiente de um ecossistema é variado, complexo e dinâmico. As condições especiais que permitem grandes populações de uma única espécie são eventos raros. Conseguir, portanto, gerenciar adequadamente os ecossistemas deve ser o nosso objetivo.

Manipular de fato o ecossistema pressupõe uma enorme descentralização da agricultura. Onde for possível, a agricultura industrial deve ceder lugar à agricultura doméstica. Sem abandonar os ganhos da agricultura em larga escala e da mecanização, deve-se, contudo, cultivar a terra como se fosse um jardim. A descentralização é importante tanto para o desenvolvimento da agricultura quanto do agricultor. O motivo ecológico pressupõe a familiaridade do agricultor com o terreno que cultiva. Ele deve desenvolver sua sensibilidade para as possibilidades e necessidades do terreno, ao mesmo tempo que se torna parte orgânica do meio agrícola. Dificilmente poderemos alcançar este alto grau de sensibilidade e integração do agricultor sem reduzir a agricultura ao nível do indivíduo, das grandes fazendas industriais para as unidades de tamanho médio.

O mesmo raciocínio se aplica ao desenvolvimento racional dos recursos energéticos. A Revolução Industrial aumentou a quantidade de energia utilizada pelo homem, primeiro por um sistema único de energia (carvão) e mais tarde por um duplo (carvão-petróleo, ambos poluentes). No entanto, podemos aplicar os princípios ecológicos na solução do problema. Pode-se tentar restabelecer os antigos modelos regionais de uso integrado de energia baseado nos recursos locais usando um sofisticado sistema que combine a energia fornecida pelo vento, a água e o sol.

Essas alternativas em separado não podem solucionar os problemas ecológicos criados pelos combustíveis convencionais. Unidos, contudo, num padrão orgânico de energia desenvolvido a partir das potencialidades da região, elas podem satisfazer as necessidades de uma sociedade descentralizada.

Manter uma grande cidade requer imensas quantidades de carvão e petróleo. No entanto, as fontes alternativas fornecem apenas pequenas quantidades de energia para usá-las de modo efetivo, a megalópole deve ser descentralizada e dispersa. Um novo tipo de comunidade, adaptada às características e recursos da região e com todas as amenidades da civilização industrial, deve substituir os extensos cinturões urbanos atuais.

Resumindo a mensagem critica da Ecologia: a diminuição da variedade no mundo natural retira a base de sua unidade e totalidade, destruindo as forças responsáveis pelo equilíbrio e introduz uma regressão absoluta no desenvolvimento do mundo natural, a qual pode resultar num ambiente inadequado a formas avançadas de vida. Resumindo a mensagem reconstrutiva: se desejamos avançar na unidade e estabilidade do mundo natural, devemos conservar e promover a variedade.

Como aplicar estes conceitos à teoria social? Tendo-se em mente o princípio da totalidade e do equilíbrio como produto da diversidade, a primeira coisa que chama a atenção é que tanto ecólogo como anarquista colocam uma ênfase muito grande sobre a espontaneidade. O ecólogo tende a rejeitar a noção de "poder sobre a natureza". O anarquista, por sua vez, fala em termos de espontaneidade social, dando liberdade à criatividade da pessoas. Ambos, ao seu modo, vêem a autoridade como inibidora, como um limitante à criatividade potencial dos meios social e natural.

Tanto o ecólogo como o anarquista vêem a diferenciação como uma medida de progresso, para ambos uma unidade sempre maior é alcançada pelo crescimento da diferenciação. Uma crescente totalidade é criada pela diversificação e aprimoramento das partes.

Assim como o ecólogo busca ampliar um ecossistema e promover a livre interação entre as espécies, o anarquista busca ampliar as experiências sociais e remover as restrições ao seu desenvolvimento. O anarquismo é uma sociedade harmônica que expõe o homem aos estímulos tanto da vida agrária como urbana, da atividade física e da mental, da sensualidade não reprimida e da espiritualidade auto-direcionada, da espontaneidade e da auto-disciplina etc. Hoje, esses objetivos são vistos como mutuamente excludentes devido à própria lógica da sociedade atual -- a separação da cidade e do campo, a especialização do trabalho, a atomização do homem.

Uma comunidade anarquista deverá aproximar-se de um ecossistema bem definido: será diversificada, equilibrada e harmônica. A procura da auto suficiência levará a um uso mais inteligente e amoroso do meio-ambiente, permitindo o contato dos indivíduos com uma vasta gama de estímulos agrícolas e industriais. O engenheiro não estará separado do solo, nem o pensador do arado ou o fazendeiro da indústria. A alternância de responsabilidades cívicas e profissionais criará uma nova matriz para o desenvolvimento individual e comunitário, evitando a hiper-especialização profissional e vocacional que impediria a sociedade de alcançar seu objetivo vital: a humanização da natureza pelo técnico e a naturalização da sociedade pelo biólogo.

Nas comunidades ecológicas a vida social levará ao incremento da diversidade humana e natural, unidas em harmônica totalidade. Haverá uma colorida diferenciação dos grupos humanos e ecossistemas, cada um desenvolvendo suas potencialidades únicas e expondo os membros das comunidades a um leque de estímulos econômicos, culturais e comportamentais. A mentalidade que hoje organiza as diferenças entre o homem e outras formas de vida em esquemas hierárquicos e definições de "superioridade" e "inferioridade", dará lugar a uma visão ecológica da diversidade. As diferenças entre as pessoas não só serão respeitadas mas estimuladas. As relações tradicionais que opõem sujeito e objeto serão alteradas qualitativamente, o "outro" será concebido como parte individual do todo que se aprimora pela complexidade. Este sentido de unidade refletirá a harmonização dos interesses entre indivíduos e grupo, comunidade e ambiente, humanidade e natureza.

Condensado e adaptado de "Ecology and Revolutionary Thought". In "Post-Scarcity Anarchism" Revista Utopia nº 1 Fonte:Coletivo de Estudos Anarquistas Domingos Passos (www.nodo50.org/insurgentes).

colaborações dos nossos correspondentes da rizoma.net

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

2 - COMUNIDADES ANARQUISTAS EM NOVA ZELÂNDIA - Série Comunidades Anarquistas




Segue abaixo um pequeno relato a respeito das comunidades e coletivos anarquistas na Nova Zelândia que um viajante teve contato e que pode fazer uma humilde troca de experiências. (colaboração do Karioka)

ORGANIZAÇÕES E COLETIVOS NAS CIDADES

A realidade social, econômica e política na Nova Zelândia se distingue de certa maneira da brasileira, porem muitos problemas aqui também são vividos, e como haveria de ser ha coletivos e organizações em luta contra essas mazelas.

Na cidade de Wellington ha’ um espaço de luta e resistência anarquista que se chama um dois oito (one two eighth, 128). Esse espaço coletivo conta com uma biblioteca publica (Revolting Book’s Little Anarchist Library), que conta com inúmeros livros que tratam principalmente sobre anarquismo e anarquistas, da luta de classes, pensadores, feminismo, vegetarianismo, filosofias políticas. Uma bicicletaria “The Mechanical Tempest”, que concerta bicicletas em troca de qualquer doação, aluga para turistas e vende algumas outras que o pessoal dos coletivos que compõe a casa acham no lixo e concertam. A casa tem uma cozinha coletiva vegetariana, uma pequena horta, oficina de artesanato em madeira, oficina de artes visuais, serve de local de ensaio para bandas anarquistas, e também há uma grande sala que três dias por semana e’ reservada para reuniões das organizações e coletivos que mantém a casa.

Os coletivos e organizações hoje travam uma luta descomunal contra as empresas mineradoras que estão promovendo o desflorestamento e mineração no mar. Citarei alguns dos coletivos, KASM (Kiwis Against Seabed Mining), Save Happy Valley, Radical Youth, Wild Cat, Poneke Black Pages. Diversos informativos, panfletos sao distribuido a respeito desses crimes ecológicos que ocorrem cotidianamente aqui na Nova Zelândia.

Um dos coletivos anarquista de Wellington “Poneke Black Pages” publica mensalmente pequenos jornais anarquistas e zines. O “Coletivo Wild Cat” conta com uma lan hause chamada Oblong (computadores doados e achados no lixo), onde o usuário/a paga o quanto puder pelo uso da internet. Esses coletivos também são responsáveis pela manutenção do centro de mídia independente da Nova Zelândia (www.indymedia,org.nz). Nesse lugar também há o “Freedom Shop” uma livraria que conta com classicos do anarquismo e luta de classes, zines, cadeiras para leitura. Wild Cat, INDYMEDIA, Poneke Black, Anasrchist Book Club, Radical Youth atuam na frente anti desmatamento na Nova Zelândia, na luta anti G8, contra a Organização Mundial do Comercio, organizando protestos, imprimindo inúmeros panfletos, informativos, jornais. Também estão envolvidos na luta dos Maori contra a aculturação, promovendo um curso de língua Maori e fazendo um trabalho de base junto a comunidades Maori que resistem preservando elementos fundamentais da cultura.

Muitos dos/as companheiros/as anarquistas de Wellington foram brutalmente presos sobre a acusação de terrorismo por parte do Estado da Nova Zelândia a dois meses atrás. Prisões absurdas, sem nenhum fundamento. Investigações, rastreamento, monitoramento de ligações e mensagens de textos por celular e internet foram as estratégias utilizadas contra os anarquistas, ativistas ecológicos, e guerreiros Maoris. Porem houve uma passeata massiva, sobretudo de Maoris que percorreram diversas cidades ate’ chegarem em Wellington reivindicando a liberdade dos/as companheiros/as presos. Apos algumas semanas houve a libertação.

Os anarquistas de Wellington também fazem uma rede de contato com o EZLN, alguns membros dos coletivos foram pro México trocar experiências, e há uma frente que arrecada fundos para ajudar a luta dos Zapatistas.

Muitos companheiros/as daqui solicitavam informações e se mostravam extremamente interessados em saber a respeito da luta anarquista, das organizações, federações, coletivos, assim como a luta do MST no Brasil, tendo até alguns curtas metragens feito por um viajante nos acampamentos no Brasil, com entrevistas das frentes de ocupações e depoimentos de ocupantes de terra. O pessoal também passou algumas informações a respeito de diferentes espaços coletivos e organizações anarquistas em outras cidades como Auckland, Christchurch e outras cidades, que infelizmente ainda não tive contato com esses companheiros/as.


PUNK'S E SQUATTERS EM WELIINGTON
Wellington é uma cidade extremamente alternativa. Ha muitos punk’s na cidade que moram em squatters, alguns desses squatters foram fechados recentemente pela policia. Alguns/mas punk’s foram presos por invasão de propriedade privada. Porém alguns squatters ainda resistem servindo de abrigo e espaço cultural. Difícil saber muito a respeito da cena na cidade pois a passagem por Wellington foi ligeira (somente duas semanas), mas há de fato bandas, inúmeros zines que circulam de mão em mão e os squatters. Estive em uma apresentação de quarto bandas punk’s tres de Wellingon e uma de Sydney- Austrália. Uma das bandas era composta por quarto garotas, com um som verdadeiramente pesado, agressivo e ideológico “Poodles Nuke’em High”
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NO CAMPO

Sempre que pensamos numa transformação radical da sociedade no sentido de se construir o Socialismo Libertário nunca devemos perder de vista a questão da organização do campo e da produção na terra. Questões essas fundamentais na construção de uma nova sociedade que não se paute nos horrores provocados pelo sistema capitalista ao meio ambiente, dentre eles, o produção voltada tão somente ao comercio e consumo (de preferência em grande escala e especifica), exploração sem fim dos trabalhadores/as, uso indiscriminado de pesticidas e agrotóxicos, cultivo de forma errada do solo, desflorestamento, devastações e infinitas outras atrocidades promovidas em prol do lucro.

Porem ha experiências diferentes e que se pautam em idéias muito mais avançadas e não agressivas ao solo e ao meio ambiente. A biodinâmica é uma delas, experiência essa muito relevante para se alcançar o máximo da autogestão na terra em que se produz. Resumidamente procura-se fazer o uso completo do solo em forma de rotação. Hohepa Homes e’ um exemplar de comunidades biodinâmica, localiza-se na cidade de Clive na Nova Zelândia. A comunidade Hohepa Homes procura fazer essa rotação dinâmica na produção. Produz-se leite, com o leite queijo, com o soro do leite alimenta-se os porcos, com a bosta da vaca se faz a composta (grama, capim e bosta, colocado num lugar coberto por um ano de inverno a inverno, para que a composta passe pelo processo de decomposição pelas quatro estações do ano), usada para alimentar a terra e deixá-la muito mais produtiva. Também se produz verduras, legumes, vegetais, frutas (algumas delas servem de alimentação para as vacas, como a beterraba). O lixo orgânico das casas da comunidade serve de alimentação para os porcos e galinhas, as cascas de ovos como nutriente para a terra, os chifres de vaca são enterrados com bosta de vaca dentro por um ano para se ter um super nutriente para a terra. Tudo é orgânico, e a comunidade procura utilizar ao máximo todos os recursos disponíveis no próprio local. Se produz de acordo com a Lua, pois ela influencia de sobremaneira, na estação certa do ano, bem como na colheita. Para executar determinados trabalhos é necessário que se forme equipes para a realização eficaz, seja na queijaria, nas hortas, na lida com as vacas, na oficina mecânica. Essa comunidade conta com uma oficina de artesanatos em madeira (brinquedos, cadeiras, mesa…), uma oficina de produção de vela (de diversos tipos), uma oficina de produção de artesanatos em pano (tricô, ponto cruz…), uma queijaria (que produz variados tipos de queijos, iogurte, qualhada, mussarela feta…) e uma lojinha para se vender parte da produção. Alem disso serve de abrigo e lar para pessoas que tem deficiência intelectual e filosófica.

Outra experiências que se dedica na produção orgânica, com todo o respeito ao meio ambiente, e a qualidade da produção e alimentação, assim como a organização horizontal dos trabalhadores/as em coletivos de trabalho e’ a comunidade Wilderland. Essa comunidade se situa na península de Coromendel numa cidadezinha chamada Witianga na Nova Zelândia. A comunidade Wilderland sobrevive e resiste ha’ 43 anos. Fundada em 1964, Wilderland se dedica a produção de frutas orgânicas (dentre elas: laranja, mexerica, maca, abacate, uva, pinha, maracujá e muitas outras), também produz verduras e legumes de diversos tipos (como alho, cebola, alho poro, couve, repolho, brócolis, cenoura, alface, tomate, agrião, rúcula…). A comunidade também conta com a produção de diferentes tipos de mel e seus derivados, como a cera para a fabricação velas artesanais. O mel provem de 50 caixas de abelhas espalhadas no território comunal. Os banheiros da comunidade são ecológicos, então não há água nas privadas, elas ficam numa estrutura de madeira, e as fezes caem em um buraco, sendo enterradas com pó de serra e futuramente serão usadas na elaboração de composta para os pomares de frutas. O excedente da produção e’ vendido numa lojinha da comunidade na beira da estrada para pagar despesas básicas, como determinados produtos para alimentação que a comunidade não produz (farinha, feijão, aveia…) produtos para higiene pessoal (pasta de dente, sabão pra lavar roupa…), combustível para a maquinaria (trator, cortador de grama…), energia elétrica que abastece a comunidade. Depois de paga essas despesas coletivas uma parte do que sobra e’ repartido entre os residentes e outra parte e’ guardada para futuras despesas. A comunidade conta com aproximadamente 15 casas (todas feitas de madeira de forma artesanal, bonitas diferentes e aconchegantes, feita ao longo do tempo pelos próprios residentes), um hall (cozinha coletiva, uma sala de estar, a biblioteca, mesa de ping-pong , outra de futebol, cama elástica, biblioteca), uma oficina mecânica, uma oficina para a produção de mel, infinitos pomares de frutas, diversos canteiros de horta. Wilderland e’ situada num território definitivamente lindo, com um lago enorme (para nadar, pescar, há kaiaques e pedalinho para se divertir) que por ele vai ate’ o mar e a pequena cidade de Witianga. Cada residente tem a liberdade de trabalhar de acordo com suas habilidades, e ajudar os demais em outros trabalhos que exigem uma equipe. A comunidade oferece uma casa, alimentação, o conforto e a tranqüilidade de se morar em um espaço alternativo que se baseia em princípios totalmente diferentes dos quais estamos acostumados. Não tem ninguém mandando em ninguém. O horário de trabalho começa as 9 da manha e termina a uma da tarde, cada dia uma pessoa se dispõe a fazer o almoço pra coletividade, uma outra para trabalhar na lojinha e as demais nos outros afazeres. Wilderland hoje conta com oito residentes e um monte de voluntários, que vão para visitar a comunidade por algumas semanas. A comunidade sempre esta aberta a novos residentes que queiram residir lá ou visitantes. A moradora mais antiga é Edith, uma mulher de 93 anos, fundadora da comunidade junto com seu recém falecido marido Dan. Wilderland é a primeira comunidade libertaria a surgir na Nova Zelândia e resiste através dos tempos, cultivando a liberdade, a harmonia com o meio-ambiente, a cultura orgânica. “Welcome to Wilderland World”!

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Anarquismo na Nova Zelândia hoje

agência de notícias anarquistas-ana
mr.ana@terra.com.br

Cada vez mais o anarquismo pipoca em países com pouca ou nenhuma tradição de luta libertária. E na Nova Zelândia não podia ser diferente. O anarquista Toby é integrante do grupo Wildcat e editor da revista Thrall, de Wellington. E fala para a ANA das movimentações anárquicas naquela parte do planeta rica em paisagens naturais e terra dos índios Maoris, um dos primeiros povos a usar seu próprio corpo como arte, através das tatuagens e piercings.

Grupos

O movimento anarquista na Nova Zelândia, ou Aotearoa (o nome Maori para Nova Zelândia) é pequeno, mas mostra alguns sinais encorajantes. No momento, há grupos anarquistas funcionando em Auckland, “Class War Youth Anarchist Organisation”, Wellington, o “Committee for the Establishment of Civilisation”, o “Freedom Shop Collective”, e o “Wildcat”, e em Christchurch “Anarchist Round Table”, ou ART. Também há agrupamentos anarquistas informais em Hamilton e Dunedin, e uma seção da união sindicalista “Industrial Workers of the World” (IWW), em Dunedin.

Encontro

Uma recente conferência nacional anarquista organizada pela ART, feita em Chistchurch, no ano passado, atraiu aproximadamente 50 pessoas, o que não é ruim considerando que somente um quarto da população (900.000) vive em South Island e que na Nova Zelândia falta uma tradição de política radical, em qualquer tipo de política, luta.

Atividades e lutas

As atividades desses grupos são variadas. Algumas são focalizadas em lutas locais da comunidade, como os anarquistas de Wellington, envolvidos na tentativa de parar a construção de uma estrada inútil que passará no meio da cidade, que destruirá diversas moradias, incluindo a “Freedom Shop”, que é a única livraria anarquista na Nova Zelândia. A luta contra essa estrada na cidade envolve ocupações, policiais desordenados, manifestações, assim como parar a tentativa dos guardas de segurança de nos tirar para fora da “Freedom Shop”. A “Freedom Shop” ainda está funcionando, mas seu futuro é incerto. A “Class War Youth”, de Auckland, esteve, recentemente, pesadamente envolvida numa greve no ensino médio para apoiar os professores, que estavam participando em uma arriscada greve maciça. Eles também participaram de ações diretas contra a privatização da água em Auckland. A ART em Christchurch esteve envolvida na construção de um centro ativista (já inexistente), direitos de beneficiários, e ajudou a produzir um jornal da comunidade local. A maioria dos grupos está ativa na oposição à guerra das elites americanas “contra o terrorismo”.

Fraqueza

A maior fraqueza do movimento anarquista, acredito eu, é que nós temos muito pouca influência nos locais de trabalho. Em anos recentes nós tivemos alguma influência em lutas da comunidade operária, e em lutas de beneficiários, mas efetivamente não há influência nos locais de trabalho. A IWW está tentando superar isto, e fez um ótimo trabalho ao apoiar a luta dos estivadores, no ano passado, mas a IWW como uma organização não deslanchou ainda.

Crescendo

Por outro lado, o movimento anarquista está agora atraindo uma escala maior de pessoas, do que apenas os punks e hippies aos quais esteve limitado há 10 anos atrás. Tem havido uma mudança do “estilo de vida anarquista” e do anarquismo liberal para um “anarquismo de luta de classes”. Essa movimentação é estimulada pela revista “Thrall”, a maior revista anarquista na Nova Zelândia, produzida por um coletivo de anarco-comunistas e anarco-sindicalistas em Wellington e Christchurch.

Luta de classes

O anarquismo de luta de classes parece ser bem mais relevante às condições na Nova Zelândia hoje, onde nós temos sido sujeitos a um assalto do neoliberalismo aos níveis de vida, salários e condições de trabalho, que colocaram aproximadamente 30% da população abaixo da linha de pobreza. Nós ainda não chegamos a uma situação tão mal quanto à da Argentina, mas a Nova Zelândia decaiu de um dos países mais ricos do mundo nos anos 60 para um dos países com menor nível de vida do 1º mundo atualmente. Entretanto, o assalto neoliberal e a recessão não resultaram em muita resistência da classe trabalhadora. A resistência foi isolada e subornada, assim como a onda de ocupações de terra dos Maoris na metade dos anos 90. A maioria dos neozelandeses é apática e se sente sem poder para mudar as coisas, no geral há pouco interesse na política radical.

Maoris e anarquismo

O assim chamado “movimento anticapitalista” tem recentemente reavivado um pouco seu interesse pelo anarquismo. Nós organizamos muitos “carnavais contra o capitalismo” bem-sucedidos em Wellington. Atraíram até 800 pessoas, o que não parece muito, mas considerando que os protestos na Nova Zelândia tendem a atrair como 50 pessoas na média de anos recentes, os números são, na verdade, relativamente altos. Com a organização dos carnavais nós estabelecemos boas redes com grupos de autodeterminação Maoris anticapitalistas, que são parte da rede internacional Ação Global dos Povos (AGP ou PGA). A AGP da Nova Zelândia estará organizando uma conferência este ano em Wellington. Isso é emocionante porque é a primeira vez que grupos de autodeterminação Maoris foram atraídos pelo anarquismo e pelas formas anarquistas descentralizadas de organização.


Mais infos:

Thrall - POB 22-076 – Christchurch – Aotearoa – New Zealand
e-mail: thrallnet@yahoo.com
www.thrall.orcon.net.nz
www.freespeech.org/thrall

Colaborou Karina Lima, Belo Horizonte (MG)

Agência de Notícias Anarquistas-ANA

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

1 - CHRISTIANIA - SÉRIE COMUNIDADES ANARQUISTAS



A Cidade Livre de Christiania é uma comunidade independente e autogestionada localizada na cidade de Copenhaga, Dinamarca.
A antiga área recém abandonada de bases militares de Badsmandsstraedes Kaserne, localizada nas proximidades de Christianshavn, um subúrbio da capital dinamarquesa, foi ocupada em 1971 por alguns milhares de hippies, anarquistas, artistas e músicos, como uma forma de protesto ao governo da Dinamarca.
Naquela época, muitas pessoas provenientes de diversas grandes cidades dinamarquesas sentiam-se traídas pelo governo, acreditando haver certo descaso quanto ao sistema habitacional por parte dos políticos e seus representantes. Os primeiros ocupantes da área que mais tarde viria a ser nomeada de Christiania tinham como ideal comum a rejeição a certos valores morais e convenções sociais e, principalmente, aos ideais capitalistas que assolaram a Europa no contexto pós-Segunda Guerra Mundial. Os habitantes de Christiania também queriam um espaço verde e aberto, para que pudessem criar seus filhos longe do crescente tumulto de Copenhaga.
O espírito da comunidade de Christiania foi logo permeado por valores comunistas e do movimento hippie, num contraste com a idéia original de ocupar a área como um mecanismo de defesa e refúgio.
Tentativas judicialmente legais feitas por órgãos estatais para a retirada dos habitantes de Christiania (tidos como "indesejáveis perturbadores da paz e da ordem" pelos outros moradores de Christianshavn e Copenhaga) fracassaram devido ao enorme número de pessoas e à enormidade da área ocupada. Seus moradores passaram então a tratar Christiania como uma “Experiência Social”, até que o uso e o destino das terras fosse finalmente decidido. Em contrapartida, os ocupantes consentiram em arcar com as despesas de água e energia eléctrica.
Os actuais moradores de Christiania referem-se a si próprios como moradores de uma cidade livre, administrativamente independentes das autoridades nacionais. Moradores ainda mais formais tratam Christiania como uma Comunidade Autónoma.
Christiania oferece uma infinidade de atracções artísticas e intensa vida cultural. A arquitectura individualista e pitoresca, bem como a planta da comunidade são as expressões e marcas de um estilo de vida alternativo lá representado. Todos os tipos de serviços passaram a ser introduzidos e oferecidos à população ao longo dos anos: desde a recolha de lixo e limpeza das ruas, até serviços de correio e escola. Não há contratos de aluguéis nem propriedades de imóveis, de modo que cada um mantém uma relação muito pessoal com a casa a qual habita. A solução de conflitos e problemas comunitários é feita democraticamente e baseada em consenso geral, de modo que cada indivíduo possui responsabilidade na manutenção da ordem no âmbito da comunidade. Não existe polícia, portanto reuniões e encontros de caráter diverso são organizados com o objectivo de se tomar decisões em favor da comunidade e de se propor intervenções quando se fizer necessário, podendo um membro receber como “Penalidade Máxima“ a exclusão permanente da comunidade. Não obstante, parte dos habitantes não pertencem integralmente à comunidade, e muitos trabalham inclusive além das fronteiras de Christiania, pagando impostos regularmente ao governo dinamarquês – e, ao mesmo tempo, parte à administração da cidade livre.
Carros e as chamadas "drogas pesadas" são proibidos em Christiania. Já o consumo de drogas tidas como "leves" passou a ser tolerado dentro dos limites da comunidade há cerca de trinta anos pelo governo dinamarquês. Entretanto, em 16 de Março de 2003, autoridades evacuaram a rua Pusher Street, que se tornou conhecida como ponto de venda de maconha – uma atracção turística –, e prenderam mais de 50 negociadores da erva. Mas não sem consequências futuras, como se constataria mais tarde: sem a “grande sensação”, o fluxo de visitantes e turistas dentro de Christiania quase cessou, e com isso também a entrada de dinheiro na comunidade, trazendo problemas financeiros à cidade livre, que ainda hoje persistem
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