sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

2 - COMUNIDADES ANARQUISTAS EM NOVA ZELÂNDIA - Série Comunidades Anarquistas




Segue abaixo um pequeno relato a respeito das comunidades e coletivos anarquistas na Nova Zelândia que um viajante teve contato e que pode fazer uma humilde troca de experiências. (colaboração do Karioka)

ORGANIZAÇÕES E COLETIVOS NAS CIDADES

A realidade social, econômica e política na Nova Zelândia se distingue de certa maneira da brasileira, porem muitos problemas aqui também são vividos, e como haveria de ser ha coletivos e organizações em luta contra essas mazelas.

Na cidade de Wellington ha’ um espaço de luta e resistência anarquista que se chama um dois oito (one two eighth, 128). Esse espaço coletivo conta com uma biblioteca publica (Revolting Book’s Little Anarchist Library), que conta com inúmeros livros que tratam principalmente sobre anarquismo e anarquistas, da luta de classes, pensadores, feminismo, vegetarianismo, filosofias políticas. Uma bicicletaria “The Mechanical Tempest”, que concerta bicicletas em troca de qualquer doação, aluga para turistas e vende algumas outras que o pessoal dos coletivos que compõe a casa acham no lixo e concertam. A casa tem uma cozinha coletiva vegetariana, uma pequena horta, oficina de artesanato em madeira, oficina de artes visuais, serve de local de ensaio para bandas anarquistas, e também há uma grande sala que três dias por semana e’ reservada para reuniões das organizações e coletivos que mantém a casa.

Os coletivos e organizações hoje travam uma luta descomunal contra as empresas mineradoras que estão promovendo o desflorestamento e mineração no mar. Citarei alguns dos coletivos, KASM (Kiwis Against Seabed Mining), Save Happy Valley, Radical Youth, Wild Cat, Poneke Black Pages. Diversos informativos, panfletos sao distribuido a respeito desses crimes ecológicos que ocorrem cotidianamente aqui na Nova Zelândia.

Um dos coletivos anarquista de Wellington “Poneke Black Pages” publica mensalmente pequenos jornais anarquistas e zines. O “Coletivo Wild Cat” conta com uma lan hause chamada Oblong (computadores doados e achados no lixo), onde o usuário/a paga o quanto puder pelo uso da internet. Esses coletivos também são responsáveis pela manutenção do centro de mídia independente da Nova Zelândia (www.indymedia,org.nz). Nesse lugar também há o “Freedom Shop” uma livraria que conta com classicos do anarquismo e luta de classes, zines, cadeiras para leitura. Wild Cat, INDYMEDIA, Poneke Black, Anasrchist Book Club, Radical Youth atuam na frente anti desmatamento na Nova Zelândia, na luta anti G8, contra a Organização Mundial do Comercio, organizando protestos, imprimindo inúmeros panfletos, informativos, jornais. Também estão envolvidos na luta dos Maori contra a aculturação, promovendo um curso de língua Maori e fazendo um trabalho de base junto a comunidades Maori que resistem preservando elementos fundamentais da cultura.

Muitos dos/as companheiros/as anarquistas de Wellington foram brutalmente presos sobre a acusação de terrorismo por parte do Estado da Nova Zelândia a dois meses atrás. Prisões absurdas, sem nenhum fundamento. Investigações, rastreamento, monitoramento de ligações e mensagens de textos por celular e internet foram as estratégias utilizadas contra os anarquistas, ativistas ecológicos, e guerreiros Maoris. Porem houve uma passeata massiva, sobretudo de Maoris que percorreram diversas cidades ate’ chegarem em Wellington reivindicando a liberdade dos/as companheiros/as presos. Apos algumas semanas houve a libertação.

Os anarquistas de Wellington também fazem uma rede de contato com o EZLN, alguns membros dos coletivos foram pro México trocar experiências, e há uma frente que arrecada fundos para ajudar a luta dos Zapatistas.

Muitos companheiros/as daqui solicitavam informações e se mostravam extremamente interessados em saber a respeito da luta anarquista, das organizações, federações, coletivos, assim como a luta do MST no Brasil, tendo até alguns curtas metragens feito por um viajante nos acampamentos no Brasil, com entrevistas das frentes de ocupações e depoimentos de ocupantes de terra. O pessoal também passou algumas informações a respeito de diferentes espaços coletivos e organizações anarquistas em outras cidades como Auckland, Christchurch e outras cidades, que infelizmente ainda não tive contato com esses companheiros/as.


PUNK'S E SQUATTERS EM WELIINGTON
Wellington é uma cidade extremamente alternativa. Ha muitos punk’s na cidade que moram em squatters, alguns desses squatters foram fechados recentemente pela policia. Alguns/mas punk’s foram presos por invasão de propriedade privada. Porém alguns squatters ainda resistem servindo de abrigo e espaço cultural. Difícil saber muito a respeito da cena na cidade pois a passagem por Wellington foi ligeira (somente duas semanas), mas há de fato bandas, inúmeros zines que circulam de mão em mão e os squatters. Estive em uma apresentação de quarto bandas punk’s tres de Wellingon e uma de Sydney- Austrália. Uma das bandas era composta por quarto garotas, com um som verdadeiramente pesado, agressivo e ideológico “Poodles Nuke’em High”
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NO CAMPO

Sempre que pensamos numa transformação radical da sociedade no sentido de se construir o Socialismo Libertário nunca devemos perder de vista a questão da organização do campo e da produção na terra. Questões essas fundamentais na construção de uma nova sociedade que não se paute nos horrores provocados pelo sistema capitalista ao meio ambiente, dentre eles, o produção voltada tão somente ao comercio e consumo (de preferência em grande escala e especifica), exploração sem fim dos trabalhadores/as, uso indiscriminado de pesticidas e agrotóxicos, cultivo de forma errada do solo, desflorestamento, devastações e infinitas outras atrocidades promovidas em prol do lucro.

Porem ha experiências diferentes e que se pautam em idéias muito mais avançadas e não agressivas ao solo e ao meio ambiente. A biodinâmica é uma delas, experiência essa muito relevante para se alcançar o máximo da autogestão na terra em que se produz. Resumidamente procura-se fazer o uso completo do solo em forma de rotação. Hohepa Homes e’ um exemplar de comunidades biodinâmica, localiza-se na cidade de Clive na Nova Zelândia. A comunidade Hohepa Homes procura fazer essa rotação dinâmica na produção. Produz-se leite, com o leite queijo, com o soro do leite alimenta-se os porcos, com a bosta da vaca se faz a composta (grama, capim e bosta, colocado num lugar coberto por um ano de inverno a inverno, para que a composta passe pelo processo de decomposição pelas quatro estações do ano), usada para alimentar a terra e deixá-la muito mais produtiva. Também se produz verduras, legumes, vegetais, frutas (algumas delas servem de alimentação para as vacas, como a beterraba). O lixo orgânico das casas da comunidade serve de alimentação para os porcos e galinhas, as cascas de ovos como nutriente para a terra, os chifres de vaca são enterrados com bosta de vaca dentro por um ano para se ter um super nutriente para a terra. Tudo é orgânico, e a comunidade procura utilizar ao máximo todos os recursos disponíveis no próprio local. Se produz de acordo com a Lua, pois ela influencia de sobremaneira, na estação certa do ano, bem como na colheita. Para executar determinados trabalhos é necessário que se forme equipes para a realização eficaz, seja na queijaria, nas hortas, na lida com as vacas, na oficina mecânica. Essa comunidade conta com uma oficina de artesanatos em madeira (brinquedos, cadeiras, mesa…), uma oficina de produção de vela (de diversos tipos), uma oficina de produção de artesanatos em pano (tricô, ponto cruz…), uma queijaria (que produz variados tipos de queijos, iogurte, qualhada, mussarela feta…) e uma lojinha para se vender parte da produção. Alem disso serve de abrigo e lar para pessoas que tem deficiência intelectual e filosófica.

Outra experiências que se dedica na produção orgânica, com todo o respeito ao meio ambiente, e a qualidade da produção e alimentação, assim como a organização horizontal dos trabalhadores/as em coletivos de trabalho e’ a comunidade Wilderland. Essa comunidade se situa na península de Coromendel numa cidadezinha chamada Witianga na Nova Zelândia. A comunidade Wilderland sobrevive e resiste ha’ 43 anos. Fundada em 1964, Wilderland se dedica a produção de frutas orgânicas (dentre elas: laranja, mexerica, maca, abacate, uva, pinha, maracujá e muitas outras), também produz verduras e legumes de diversos tipos (como alho, cebola, alho poro, couve, repolho, brócolis, cenoura, alface, tomate, agrião, rúcula…). A comunidade também conta com a produção de diferentes tipos de mel e seus derivados, como a cera para a fabricação velas artesanais. O mel provem de 50 caixas de abelhas espalhadas no território comunal. Os banheiros da comunidade são ecológicos, então não há água nas privadas, elas ficam numa estrutura de madeira, e as fezes caem em um buraco, sendo enterradas com pó de serra e futuramente serão usadas na elaboração de composta para os pomares de frutas. O excedente da produção e’ vendido numa lojinha da comunidade na beira da estrada para pagar despesas básicas, como determinados produtos para alimentação que a comunidade não produz (farinha, feijão, aveia…) produtos para higiene pessoal (pasta de dente, sabão pra lavar roupa…), combustível para a maquinaria (trator, cortador de grama…), energia elétrica que abastece a comunidade. Depois de paga essas despesas coletivas uma parte do que sobra e’ repartido entre os residentes e outra parte e’ guardada para futuras despesas. A comunidade conta com aproximadamente 15 casas (todas feitas de madeira de forma artesanal, bonitas diferentes e aconchegantes, feita ao longo do tempo pelos próprios residentes), um hall (cozinha coletiva, uma sala de estar, a biblioteca, mesa de ping-pong , outra de futebol, cama elástica, biblioteca), uma oficina mecânica, uma oficina para a produção de mel, infinitos pomares de frutas, diversos canteiros de horta. Wilderland e’ situada num território definitivamente lindo, com um lago enorme (para nadar, pescar, há kaiaques e pedalinho para se divertir) que por ele vai ate’ o mar e a pequena cidade de Witianga. Cada residente tem a liberdade de trabalhar de acordo com suas habilidades, e ajudar os demais em outros trabalhos que exigem uma equipe. A comunidade oferece uma casa, alimentação, o conforto e a tranqüilidade de se morar em um espaço alternativo que se baseia em princípios totalmente diferentes dos quais estamos acostumados. Não tem ninguém mandando em ninguém. O horário de trabalho começa as 9 da manha e termina a uma da tarde, cada dia uma pessoa se dispõe a fazer o almoço pra coletividade, uma outra para trabalhar na lojinha e as demais nos outros afazeres. Wilderland hoje conta com oito residentes e um monte de voluntários, que vão para visitar a comunidade por algumas semanas. A comunidade sempre esta aberta a novos residentes que queiram residir lá ou visitantes. A moradora mais antiga é Edith, uma mulher de 93 anos, fundadora da comunidade junto com seu recém falecido marido Dan. Wilderland é a primeira comunidade libertaria a surgir na Nova Zelândia e resiste através dos tempos, cultivando a liberdade, a harmonia com o meio-ambiente, a cultura orgânica. “Welcome to Wilderland World”!

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Anarquismo na Nova Zelândia hoje

agência de notícias anarquistas-ana
mr.ana@terra.com.br

Cada vez mais o anarquismo pipoca em países com pouca ou nenhuma tradição de luta libertária. E na Nova Zelândia não podia ser diferente. O anarquista Toby é integrante do grupo Wildcat e editor da revista Thrall, de Wellington. E fala para a ANA das movimentações anárquicas naquela parte do planeta rica em paisagens naturais e terra dos índios Maoris, um dos primeiros povos a usar seu próprio corpo como arte, através das tatuagens e piercings.

Grupos

O movimento anarquista na Nova Zelândia, ou Aotearoa (o nome Maori para Nova Zelândia) é pequeno, mas mostra alguns sinais encorajantes. No momento, há grupos anarquistas funcionando em Auckland, “Class War Youth Anarchist Organisation”, Wellington, o “Committee for the Establishment of Civilisation”, o “Freedom Shop Collective”, e o “Wildcat”, e em Christchurch “Anarchist Round Table”, ou ART. Também há agrupamentos anarquistas informais em Hamilton e Dunedin, e uma seção da união sindicalista “Industrial Workers of the World” (IWW), em Dunedin.

Encontro

Uma recente conferência nacional anarquista organizada pela ART, feita em Chistchurch, no ano passado, atraiu aproximadamente 50 pessoas, o que não é ruim considerando que somente um quarto da população (900.000) vive em South Island e que na Nova Zelândia falta uma tradição de política radical, em qualquer tipo de política, luta.

Atividades e lutas

As atividades desses grupos são variadas. Algumas são focalizadas em lutas locais da comunidade, como os anarquistas de Wellington, envolvidos na tentativa de parar a construção de uma estrada inútil que passará no meio da cidade, que destruirá diversas moradias, incluindo a “Freedom Shop”, que é a única livraria anarquista na Nova Zelândia. A luta contra essa estrada na cidade envolve ocupações, policiais desordenados, manifestações, assim como parar a tentativa dos guardas de segurança de nos tirar para fora da “Freedom Shop”. A “Freedom Shop” ainda está funcionando, mas seu futuro é incerto. A “Class War Youth”, de Auckland, esteve, recentemente, pesadamente envolvida numa greve no ensino médio para apoiar os professores, que estavam participando em uma arriscada greve maciça. Eles também participaram de ações diretas contra a privatização da água em Auckland. A ART em Christchurch esteve envolvida na construção de um centro ativista (já inexistente), direitos de beneficiários, e ajudou a produzir um jornal da comunidade local. A maioria dos grupos está ativa na oposição à guerra das elites americanas “contra o terrorismo”.

Fraqueza

A maior fraqueza do movimento anarquista, acredito eu, é que nós temos muito pouca influência nos locais de trabalho. Em anos recentes nós tivemos alguma influência em lutas da comunidade operária, e em lutas de beneficiários, mas efetivamente não há influência nos locais de trabalho. A IWW está tentando superar isto, e fez um ótimo trabalho ao apoiar a luta dos estivadores, no ano passado, mas a IWW como uma organização não deslanchou ainda.

Crescendo

Por outro lado, o movimento anarquista está agora atraindo uma escala maior de pessoas, do que apenas os punks e hippies aos quais esteve limitado há 10 anos atrás. Tem havido uma mudança do “estilo de vida anarquista” e do anarquismo liberal para um “anarquismo de luta de classes”. Essa movimentação é estimulada pela revista “Thrall”, a maior revista anarquista na Nova Zelândia, produzida por um coletivo de anarco-comunistas e anarco-sindicalistas em Wellington e Christchurch.

Luta de classes

O anarquismo de luta de classes parece ser bem mais relevante às condições na Nova Zelândia hoje, onde nós temos sido sujeitos a um assalto do neoliberalismo aos níveis de vida, salários e condições de trabalho, que colocaram aproximadamente 30% da população abaixo da linha de pobreza. Nós ainda não chegamos a uma situação tão mal quanto à da Argentina, mas a Nova Zelândia decaiu de um dos países mais ricos do mundo nos anos 60 para um dos países com menor nível de vida do 1º mundo atualmente. Entretanto, o assalto neoliberal e a recessão não resultaram em muita resistência da classe trabalhadora. A resistência foi isolada e subornada, assim como a onda de ocupações de terra dos Maoris na metade dos anos 90. A maioria dos neozelandeses é apática e se sente sem poder para mudar as coisas, no geral há pouco interesse na política radical.

Maoris e anarquismo

O assim chamado “movimento anticapitalista” tem recentemente reavivado um pouco seu interesse pelo anarquismo. Nós organizamos muitos “carnavais contra o capitalismo” bem-sucedidos em Wellington. Atraíram até 800 pessoas, o que não parece muito, mas considerando que os protestos na Nova Zelândia tendem a atrair como 50 pessoas na média de anos recentes, os números são, na verdade, relativamente altos. Com a organização dos carnavais nós estabelecemos boas redes com grupos de autodeterminação Maoris anticapitalistas, que são parte da rede internacional Ação Global dos Povos (AGP ou PGA). A AGP da Nova Zelândia estará organizando uma conferência este ano em Wellington. Isso é emocionante porque é a primeira vez que grupos de autodeterminação Maoris foram atraídos pelo anarquismo e pelas formas anarquistas descentralizadas de organização.


Mais infos:

Thrall - POB 22-076 – Christchurch – Aotearoa – New Zealand
e-mail: thrallnet@yahoo.com
www.thrall.orcon.net.nz
www.freespeech.org/thrall

Colaborou Karina Lima, Belo Horizonte (MG)

Agência de Notícias Anarquistas-ANA

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