quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

mais 3 entrevistas com o Zé Celso/Séries 3-2-5 TRÊS SÉRIES EM UMA SÓ MATÉRIA.











o Zé Celso é tão grande que além de não caber na foto não se adapata plenamente em uma só série. Portanto além da Série Manifesto Teatral dos Novos Nobres, vamos abrir mais 3 entrevistas referentes à série trupes anarquistas, Anarquistas práticos e Anarquiação!




Entrevistas exclusivas com os diretores Antunes Filho, ZÉ CELSO e Gerald Thomas
POR ANA ARANHA para a revista Época.






ANTUNES FILHO










Com o mesmo grupo com o qual trabalha há anos no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), Antunes Filho apresenta sua leitura trágica de Antígona. A seguir, o diretor fala sobre o trabalho de preparação dos atores e a maneira como quer aproximar o público jovem dos textos clássicos.


Época - Você fez comparou a sua montagem de Antígona a uma tela de arte, quais são seriam as gravuras?
Antunes Filho - Ah, isso eu falei de brincadeira. O Gregório era meio gravura, no cenário preto, aquelas gravuras bem branco e preto, era tudo detalhado e profundo. Esse é solto, solar, como o teatro na Grécia que começava às dez horas da manhã. Não tem escuridão porque quero que o público veja o jogo dos atores. Quando você começa a clarear e escurecer, o ritmo fica com o iluminador , no meu espetáculo os atores que têm o ritmo,são donos do palco.

Época - Você preenche o palco completamente, cada grupo pontua um espaço, cada canto tem sua música...
Antunes Filho - É isso. Eu quero mostrar que o teatro é um jogo. O Prêt-à-Porter tem um falso naturalismo. Nesse espetáculo quero fazer teatro-teatro e quero trazer o jovem porque ele está afastado dos clássicos, têm temor, acha chato. Quero provar que não, que os clássicos também são atuais e divertidos.





Época - A encenação de "Fragmentos Troianos" estava vinculada à forma dramática, "Medéia", como você mesmo disse, ficou meio a meio, "Antígona" finalmente chegou ao trágico....
Antunes Filho - Agora eu consegui chegar à tragédia latino americana. Não vou fazer aquelas mulheres de preto, aquela coisa chata. Eu adoro as tragédias gregas, mas acho muito chato. A Medéia já afastava esse perigo. Apesar de Antígona ser uma tragédia, tem seu lado lúdico.

Época - Quais foram os elementos que trabalharam a atualização da tragédia?
Antunes Filho - Eu enxuguei o texto, mas não cortei nenhuma metáfora. A maneira de falar é diferente, flui mais, usamos a ressonância. No teatro normal as pessoas falam projetando e fica tudo entrecortado. Projeção é uma coisa maluca, tem que fazer um x lá no meio da platéia, a língua portuguesa fica pedregosa. Na ressonância você começa a perceber que a língua tem a sua eufonia, é tudo mais sonoro, como uma flauta. O espetáculo é gostoso de ouvir, não é motor de carro.

Época - Foi difícil encontrar o tom da tragédia?
Antunes Filho - Cheguei à conclusão de que não tem imaginação sem técnica, não tem o verdadeiro sentimento sem técnica, não tem instinto. Quando se usa a projeção de voz, você se usa o sentimento, mas a ansiedade. A projeção leva o ator a ser estereotipado. Estou querendo dar essa contribuição para a cultura teatral brasileira e acho que estou conseguindo. É uma maneira de falar aqui que não se fala lugar em nenhum.

Época - No Gregório já estavam usando?
Antunes Filho - Já, mas naquela peça os atores não sabiam falar. Agora sim, eu dei muita técnica para eles, porque a técnica é fundamental no teatro, sem a técnica você não consegue nada, fica repetindo a mesma coisa o resto da vida.

Época - Voltando à Antígona, por que a escolha de uma personagem tão limpa e reta?
Antunes Filho - A Antígona para mim, no meu idealismo, é a busca da verdade e a gente sempre paga um preço caro pela verdade. Eu também tenho meu lado da lei e meu lado de Antígona. É essa a nossa contradição, é de todo mundo, a organização para dar certo. As pessoas não dizem o que deve ser dito. Os problemas de Antígona até hoje não foram resolvidos. O problema do poder, o problema do instinto de liberdade. Como equilibrar isso? Eu não quero resolver, eu quero colocar a questão. De um lado todos temos essa coisa da Antígona, não concordamos com a sociedade em tantas coisas. E ela não concorda conosco também em tantas outras.

Época - Você se inspirou em algum fato atual?
Antunes Filho - Não preciso me lembrar de um caso porque todos são permeados disso. Essa dialética que você tem que fazer com você mesmo. O que é que vale mais, a liberdade ou a sobrevivência? As pessoas se sacrificam pela liberdade e que se dane tudo

Época - Por que a escolha de Baco como fio condutor da tragédia?
Antunes Filho - Porque ele é patrono do teatro e de Tebas. O texto diz por várias vezes que é Baco que faz tremer o chão de Tebas. Apesar de ser um irracional, ele sabe que o templo dele é Tebas, do qual ele toma cuidado. Aí que está a contradição violenta do espetáculo. O lugar dele é propor, como deus do teatro. Tira os cadáveres e mitos e dá vida para que eles dêem um exemplo. Ele reergue um mito, uma história, para ver se o povo, o público vai entender. De tempos em tempos ele faz esse espetáculo, ele retira os caixões. É como se fosse os mitos do nosso subconsciente e do nosso inconsciente. Ele tira nossos arquétipos e nos coloca exemplarmente.

Época - Por que a escolha por um espetáculo tão enxuto?
Antunes Filho - Eu não gosto de nhe-nhe-nhé, gosto das coisas numa linha reta. Quero que a juventude assista e não ache os grandes autores chatos. Acho que hoje em dia não dá mais para você ir a um espetáculo de duas horas, eu não consigo, acho chato. Tem que ser pá-pum. O tempo é outro. Mas também não é por isso que tem que ser superficial. Acho que você tem que ser conciso e, em uma hora, uma hora e meia, dizer tudo que tem que ser dito. O máximo que puder enxugar, eu enxugo, mas sem perder a essência. Eu gosto de espetáculo dinâmico e o público também.

Época - O público não aceita mais?
Antunes Filho - Aceita. Tanto é que o Zé Celso (José Celso Martinez Corrêa) faz sucesso, o público fica lá cinco horas. Eu acho aborrecido, para o meu gosto não dá.

Época - Você chegou a ver alguma das montagens de Os Sertões, do Zé Celso?
Antunes Filho - Não vi. Não vou ver peça no Oficina porque se ele (Zé Celso) souber que estou lá, começa a me chamar, a dizer "o Antunes tá aqui" e eu fico morrendo de vergonha.

Época - Como você vê o trabalho de interação e quebra da quarta parede que ele desenvolve?
Antunes Filho - Esse negócio de quarta parede, terceira parede isso é tolice, isso é jogo, como qualquer outro. Você joga com a quarta e a terceira parede como quiser. Isso não é nada de novo, é mais velho que meu avô. É quarta, quinta, sexta, oitava, isso não quer dizer nada para mim. Eu quero saber o que você quer dizer. Me conta, me agradou? Ótimo, pronto.








ZÉ CELSO









O diretor José Celso Martinez Corrêa apresenta no Teatro Oficina, em São Paulo, a adaptação da terceira parte do livro "Os Sertões", de Euclides da Cunha. Em entrevista à Época, o diretor fala sobre a função do teatro e sobre a atualidade do espírito da Canudos de Antônio Conselheiro.






Época - Qual a importância da volta aos sertões?
Zé Celso - Canudos foi a primeira guerra telegrafada do mundo e a primeira vez em que se massacrou um povo absolutamente desconhecido – no caso, uma cidade de 25 mil pessoas – em nome da república e da democracia. É o arquétipo da guerra ao terror, que, por sua vez, é conseqüência do capitalismo da decadência que só oferece a visão da cultura puritana do bem e do mal, esse fundamentalismo atrasado. O papa atual falou em "ditadura do relativismo", pois, se ele é a base da democracia, é claro que vai ser a ditadura do relativismo! A humanidade está cansada de saber que não há verdade absoluta, mas mesmo assim há quem queira impor sua verdade para os outros. Nesse sentido, o livro parece que foi escrito depois do onze de setembro.






Época - Além da guerra ao terror, você fala de outros conflitos atuais, um deles quando uma personagem se apresenta como governadora "Rocinha" e fala sobre um muro...
Zé Celso - Não tem diferença. A Rosinha (governadora do Rio de Janeiro) fala do muro como solução para a favela assim como Israel pensa na solução para a Palestina. Nós temos que pensar a história do Brasil dentro do momento internacional, um muro não vai resolver o problema de Israel, do Rio, nem da relação entre EUA e América Latina.






Época - O que Euclides diria se visse a sua montagem?
Zé Celso - Acho que ficaria contente, eu sempre fui muito apaixonado por ele. Euclides precede o modernismo quando mistura linguagem científica com a língua tupi, com a dos sertanejos e com eruditismo e parnasianismo. É um livro pouco lido porque exige mapas e dicionário, mas a peça está incentivando a leitura.






Época - Mas a peça também não é fácil, você faz longas apresentações e trabalha com uma linguagem diferente da habitual.

Zé Celso - Eu trabalho com a carnavalização porque me dá liberdade para ser fiel ao presente que contém passado. Euclides falava da revolução regressiva, como Nietzsche falava do eterno retorno, essa coisa de voltar ao primitivo e ao bárbaro para retomar o presente. A motivação de A Luta é a mesma do bandido e das guerras, é a ferocidade, vontade de matar. Tem uma violência lá que corresponde à de hoje, falo daquele ponto onde a liberdade é detida e, em reação à repressão, vem a violência. A vida é assim se precisa de espaço, a natureza não reage com terremoto e tudo que é destruição ecológica? Então, é normal que haja violência na favela, é manifestação de que as pessoas estão querendo viver.




Época - Você se sente como Antônio Conselheiro, reunindo um grupo e fundando uma religião própria no Oficina?
Zé Celso - Eu não me sinto reunindo massas, mas assumindo a responsabilidade humana com o teatro. A função do teatro é social, é aonde vamos para nos potencializar, tocar e mexer nas estruturas. O teatro coloca o poder humano em evidência desmascarando o marketing que destrói o corpo, a castração, a catequização. A sociedade do espetáculo convence a multidão que ela não tem poder, que tem que ficar deslumbrada, assistir passivamente e se conformar.






Já o conselheiro era professor, estudou línguas e cuidava da contabilidade do pai, até que sua mulher começou a ir com outros homens e acabou fugindo com um sargento. Ele ficou tão desesperado que se embrenhou no mato e passou por uma transformação. Saiu do terno e da gravata e foi se relacionar com a natureza, tomar consciência do mundo vivo. Com isso, ele passou a juntar as pessoas e conseguiu resistir a uma seca que estava matando milhões de pessoas. Reuniu 25 mil pessoas que sabiam lidar com o meio e estabeleceram o mutirão; eles foram os avós dos Sem-Terra.






Época - Na peça há um canto muito interessante que clama pela "descivilização".
Zé Celso - Exatamente, é o canto do Vis a Tergo. É você retornar a suas qualidades primitivas para entrar em ação. A espécie humana está domesticada e você tem que começar a mexer onde pode. Eu, por exemplo, não acredito na democracia representativa, nessa coisa de votar e deixar nas mãos do outro a responsabilidade.






Época - Vocês têm especialistas que coordenam cada área, mas como que incorpora as idéias do atores e a participação das crianças do Bixigão?
Zé Celso - Temos um método específico para cada peça. Um diretor não trabalha com uma idéia na cabeça, mas com desejos do ator. Para isso, temos um trabalho de concentração. Quando chegam, ficamos uma hora em total silêncio. O ator tem que reencontrar o corpo dele, descondicionar, sair dos clichês. Se estiver acostumado com o palco italiano, tem que atuar para os quatro cantos do espaço.






Época - Como é trabalhar o rompimento total do palco italiano?
Zé Celso - Acho que através do ritmo você mantém o interesse do público, eu trabalho também com a incorporação do ator ao espaço. Mesmo quando ele está trocando de roupa, ouve a peça; é um trabalho que está sendo descoberto a cada dia. O ator deve ter carisma, desenvolver sua sexualidade a ponto de ter tesão de estar vivo com o público. Na verdade, todo mundo tem carisma, mas a domesticação da sociedade do espetáculo reduz as pessoas a essa coisa humilde e submissa. Eu procuro restabelecer o orgulho das pessoas. É preciso matar o ego, esses personagens que foram criados pela família, escola e sociedade. O ego é essa coisa de ter que impressionar o outro, você abdicar de você mesmo para ficar dizendo que é o único, que é fantástico.








GERALD THOMAS

O diretor teatral Gerald Thomas volta ao Brasil com um Um Circo de Rins e Fígados, a história do ator-personagem Marco Nanini envolvido em uma série de acontecimentos caóticos. Autor e diretor de uma trama cheia de metalinguagens e provocações ao meio artístico, Gerald deu a seguinte entrevista à Época.






Época - Por que escrever uma peça inteira para e sobre Marco Nanini?

Gerald Thomas - Porque ele é o maior e melhor que existe. Tive a idéia em maio do ano passado, liguei para o Nanini e ele gostou. Já fui escrevendo a parte um. Depois que ele respondeu empolgadíssimo fiz logo a dois e, em dez dias, tínhamos as vinte partes que compõe a peça.

Época - Houve uma colaboração maior de Nanini para Um Circo de Rins e Fígados do que outros artistas costumavam colaborar em suas outras peças. Você está mudando o seu modo de fazer teatro?
Gerald Thomas - Estou. Fiz 50 anos.



Época - O personagem de João Paradeiro está em busca de alguma coisa, ele manda pistas e acaba mais confundindo do que ajudando o personagem de Nanini. Quem é Paradeiro?
Gerald Thomas - Ele é uma entidade que representa uma das características do ser humano de hoje. Eu moro nos EUA, e sou em parte um cidadão americano, você acha que estou feliz com o que eles estão fazendo pelo mundo hoje em dia? Eu sou também cidadão brasileiro, você acha que estou feliz com o que está acontecendo na politicagem brasileira? Alguém está feliz olhando o mundo em volta, olhando o desespero que está acontecendo com essa coisa que ainda se chama de globalização? Há uma perda de identidade dos povos, uma crise que atinge o cerne do que há de mais importante que é o ser humano em si. Dentro do ser humano existe orgulho de um nacionalismo ou de um patriotismo, não no sentido guerreador da palavra, mas no sentido poético. Isso tudo está sendo perdido pela unificação de uma moeda como o Euro. Pela unificação de países que nada tem de comum do continente europeu. Essa utopia falhada que foi o Brasil do Lula, esse Ministério da Cultura absurdo, megalomaníaco e centralizador. Que loucura que é um artista como o Gil assumir um ministério, que decepção.





Época - A trama da peça sofre uma reviravolta quando Nanini revela seu segredo mais macabro e, ao contrário do que se espera, vive uma retomada de seu sucesso profissional. Deveria o mundo ovacionar o vergonhoso?
Gerald Thomas - Mas é o que eles estão fazendo nesses reallity shows. Eu me pergunto o que vai ser daqui a cinco anos. Na velocidade que as coisas vão, o que será? Ver um ser humano ser morto ao vivo? Hoje nos Estados Unidos tem shows em que as pessoas comem minhocas ao vivo, entram em uma banheira de baratas, um absurdo. E quem agüentar mais tempo ganha, tudo no horário nobre da CBS.





Época - Seu alvo de crítica é a mídia ou é o homem?

Gerald Thomas – É a mídia televisiva. É ela que, em última instância, consegue transformar o homem em uma besta.





Época - Você, como observador do teatro...
Gerald Thomas - Eu não sou observador do teatro. Eu não vou ao teatro, só faço o meu. Você acha que taxista, no dia em que não dirige, pega táxi?





Época - É bem diferente...
Gerald Thomas - Eu não tenho tempo para ir ao teatro, trabalho, faço muita coisa em muitos países. Eu não gosto de teatro, uso como veículo para expressar as minhas idéias.





Época - Você não se interessa em saber como outras pessoas estão usando esse veículo?
Gerald Thomas - Nem um pouco, nada. Gosto de música, pintura, cinema. Teatro não me interessa nem um pouco.





Época - Apesar de não ir ao teatro, você deve conhecer esses autores. Aqui em São Paulo, além você há outros grandes autores com peças em cartaz. O José Celso Martinez Corrêa e o Antunes Filho.
Gerald Thomas - Que o Nelson de Sá chamava de santíssima trindade do teatro brasileiro.





Época - O que acha a respeito da idéia dessa santíssima trindade?
Gerald Thomas - Acho legal e curioso que não tenha surgido ninguém para criar um quadrante.





Época - Você sabe se surgiu alguém?
Gerald Thomas - Pelo que a imprensa descreve, a santíssima trindade continua dominante.





Época - Você lê o que sai na imprensa sobre teatro?
Gerald Thomas - Leio.





Época - Não vê novos nomes despontando?
Gerald Thomas - Isso é muito difícil dizer. Não vejo ninguém criando um grande impacto na cena. Não vejo um grande revolucionário, com grandes novas idéias.






Da sexualidade à política, o Zaratustra libertário do Bixiga
Por Washington Calegari




SÃO PAULO - Sexualidade e crítica social são elementos definidores de praticamente todos os trabalhos comandados pelo diretor José Celso Martinez Corrêa. Seja nos áureos anos de chumbo da ditadura militar ou em pleno século 21, seus espetáculos não poupam o espectador de surpresas e cenas de grande impacto. Não há pudores, o espaço de crítica é permanente, sempre aberto a incorporar novas discussões e ‘agressões’ – como muitos gostam de classificar.

A tal ‘agressividade’ dos trabalhos do grupo Oficina Uzyna Uzona, entretanto, é creditada por Zé Celso à hipocrisia de uma burguesia que “não quer ser tocada”, assim como a exacerbação da sexualidade só se faz chocante graças ao viés de sacralização imposto por uma cultura dominante - que o diretor considera cega e marcada pela visão única do homem - do sexo, do amor, do poder e da liberdade.

A empreitada teatral de “Os Sertões” no Oficina adiciona alguns capítulos à trajetória desse paulista de 66 anos (Zé nasceu em Araraquara, no interior de São Paulo), fundador do teatro-estádio encravado no bairro do Bixiga, na tentativa de resgatar o poder e a liberdade do ser humano e de inserir o “trans-homem” como centro de uma concepção teatral amparada na energia e na libertação de ideologias que restrinjam o potencial de criação.

Nesta entrevista ao Aplauso Brasil, concedida antes de um ensaio de “O Homem – da revolta ao trans-homem”, que estréia no próximo dia 13, Zé Celso evidencia sua inquietação, sua insatisfação com o cenário cultural brasileiro e a energia renovada para vencer a falta de apoio financeiro e continuar construindo, com paixão, espetáculos que representam verdadeiros monumentos do teatro brasileiro.
Sem pudores, um Zé Celso que personifica aquilo que ele mesmo preconiza, mesmo quando isso significa pagar o alto preço imposto pela “ditadura econômica”: a capacidade de ser sempre jovem, apaixonado, libertário e dono do seu próprio gozo.


Aplauso Brasil - A figura de Antônio Conselheiro faz parte de seu imaginário artístico há bastante tempo, muito antes das montagens de Os Sertões. O que ele representa?
Zé Celso - Ele não representa, ele presenta, presentifica muita coisa. Esse Antônio Conselheiro de “Os Sertões” é alguma coisa do Conselheiro que existiu, esse líder que organizou Canudos, que foi importantíssimo numa época em que o mundo inteiro sofria uma seca enorme, e com a polarização dele e as pessoas que o acompanhavam, essa cidade de 25 mil habitantes resistiu à seca num período em que era fatal e as autoridades não faziam nada; tem o Conselheiro visto pelo Euclides, que eu falo na primeira peça (a primeira parte de “O Homem” (do pré-homem à revolta), e tem o Conselheiro que eu tento viver aqui e agora, de acordo com a interpretação que passa pela minha experiência de vida enquanto líder, diretor de teatro, uma pessoa que vive uma determinada posição social com seu trabalho.
Eu não pretendo a fidelidade absoluta à figura dele (de Antônio Conselheiro), porque em arte, teatro, você reinterpreta tudo, então eu procuro reinterpretar o Conselheiro a partir da experiência, sem deixar de me alimentar e de trazer a figura histórica, com as palavras de Euclides, mas ao mesmo tempo “antropofajar”, incorporar, trazer ele presente nesse momento, porque acho a figura dele muito importante para a afirmação dos novos movimentos sociais que acontecem no Brasil, não só os do Sem-Terra, que é descendente de Canudos, mas qualquer tipo de movimento de transformação passa pela figura do Antônio Conselheiro reincorporado, porque é um dos fantasmas que ronda o Brasil. Marx começava o manifesto dele dizendo “ um fantasma ronda a Europa” – o comunismo -, eu acho que o que ronda agora o Brasil é o fantasma da reforma agrária, que toca no mito da propriedade privada, produtiva ou improdutiva, o tabu mais sagrado do capitalismo. O Conselheiro e os sertanejos que estiveram com ele de certa forma abandonaram a figura do homem sertanejo oprimido, das fotos do Sebastião Salgado, eles, os sertanejos, despertaram um sentimento de transcendência. Então a figura do Conselheiro me lembra muito a do Zaratustra, me lembra muito o Nietzsche.



Aplauso - Qual a relação de Conselheiro com Zaratustra?
Zé Celso - Num momento em que a esquerda entrou numa crise total no mundo, em meio à redução do homem a uma figura de consumo, ela tem dificuldade de compreender as transformações do mundo, fica defasada, perdida na visão do marxismo tosco. Eu acho que quando o Nietzsche apareceu e trouxe de volta a experiência do ser humano como poder, com transcendência, e com a evolução do que aconteceu no mundo no século passado, depois da crítica dialética do Sartre, começaram a aparecer os movimentos culturais, o movimento negro, o das mulheres, o movimento gay, o ecológico, o da descriminalização das drogas, esse aspecto da luta de transformação abriu muito, e a figura do Conselheiro traz nele esse tipo de totalidade.



Aplauso - Em uma entrevista para a revista Civilização Brasileira, você afirma que a luta política é uma coisa que faz parte da vida inteira, e que tem política ligando tudo, inclusive a cultura e a sexualidade. A sexualidade, sob esse ponto de vista, é também uma forma de manifestação política?
Zé Celso - A sexualidade é divina. E eu sou muito religioso, mas minha religiosidade não é a de acreditar num Deus transcendente, que está fora de nós, e sim que Deus está dentro de nós, e tudo em nosso corpo é sagrado, a começar da merda. E o indivíduo que não é capaz de assumir o seu prazer e o seu gozo realmente é um indivíduo que não se possui a si mesmo, é um rebanho, daquele que vai na conversa da igreja ou dessa conversa toda de maldição sexual. A “des-repressão” sexual é considerar a sexualidade uma dádiva da natureza. No momento em que você abdica ou reprime a sua sexualidade você está negando sua própria origem. Você vem de um ato de amor, todos vêm. Então a divindade começa por aí.
A própria experiência sexual é uma experiência religiosa, de vida, com intensidade, sem medo, sem culpa, libertadora, porque o indivíduo que é dono do seu próprio gozo é dono do seu poder. E a origem da política está na liberdade do amor, da sexualidade, do poder. A cultura brasileira, que é muito libidinosa, libertária, é a cultura política brasileira. Se os políticos brasileiros se inspirassem no poder que a cultura brasileira tem, o Brasil sairia dessa crise e seria o país que daria ao mundo todo uma outra possibilidade, porque o mundo é dominado por estruturas totalmente baseadas num maniqueísmo obscuro e simplista de bem e mal, que parte da vergonha e da negação da sexualidade. Eu acho que a igreja devia pedir perdão pelo que ela fez a partir da sacralização da sexualidade.


Aplauso - Dá para comparar a sexualidade no Marquês de Sade com o modo como ela é retratada no Oficina?
Zé Celso - É diferente, porque Sade, na época dele, rompeu com os limites de uma sexualidade “papai e mamãe” e mostrou que a sexualidade é uma coisa polimorfa, que há sexualidade em tudo, na perversão, no masoquismo, no sadismo, ele mostrou que a liberdade humana está além do bem e do mal, não tem limites. Cada pessoa, cada geração, reinventa a sexualidade. É uma questão de performance, seu instinto sente e você realiza a performance de suas fantasias. Ele viveu numa época muito sanguinária, das guilhotinas, então era uma coisa muito ligada ao terror.


Aplauso - Sade dizia que se utilizava da libertinagem para expor a hipocrisia humana e romper com ela, a exemplo do exposto em “A filosofia na alcova”, que foi inclusive montada pela companhia Os Satyros. No Oficina ela é abordada de forma semelhante?
Zé Celso - Não, aqui ela é abordada no sentido de que a sexualidade é uma coisa que faz parte da vida, uma coisa sagrada da natureza. E as crianças aqui não quiseram ficar nuas (em “Os Sertões”), porque elas sabem do peso que isso significa na escola, com os pais, mas por mim elas ficariam, e de qualquer maneira elas convivem aqui com a nudez em cena. E a nudez é uma coisa que sempre, todos os anos, me perguntam, “porque você quer chocar com a nudez, o que você pretende com a nudez?” O Miguel Ângelo mostrou coisas belíssimas do nu na arte. Eu acho o corpo humano a coisa mais linda do mundo, acho a nudez maravilhosa, a nudez é inclusive o primeiro figurino do teatro. A gente vem de uma cultura, a indígena, eu quando criança achava linda, deslumbrante a nudez dos índios brasileiros, eu não vejo por que esse terror com o nudismo. A hipocrisia é um dado ligado muito à dominação social dessa totalidade da visão capitalista e cristã do bem e do mal puritano. Este teatro (Oficina) não é puritano, ele é libertário.


Aplauso - Você aponta como bases do trabalho do Oficina o conhecimento sensitivo, a libertação da sensualidade, a vinculação da arte com o princípio do prazer e a realização do instinto orgânico e da libido. O que representa, afinal, a libertação da sensualidade e esse instinto orgânico, tão presente em “O Homem”?
Zé Celso - Eu acho que a energia humana é mais forte, a energia que faz nascer, que te dá a vida, ela não se localiza só exclusivamente no pênis, no ânus e na vagina, apesar de ser muito importante, ela se localiza no corpo todo, ela transcende o corpo. O mundo todo, se você está com suas antenas sensuais ligadas, com sua sexualidade plugada, você vai perceber que ele é erótico, a respiração é erótica, e o mundo para mim tem no ar uma coisa que eu chamo de ‘panspermina’, como se fosse espera toda uma coisa fertilizadora. Eros é o maior deus, aliás até antes de Dionísio, para mim está Eros, e o Eros livre, porque eu acho que o amor é livre, como diz Antônio Conselheiro, o amor é livre, e portanto não há julgamento que possa existir em torno do amor. Portanto não tem sentido o juízo de Deus.
Vivemos numa era em que muita pessoas se libertaram dessa consciência da proibição do amor, dessa idéia de que existe alguém julgando nossos atos como pecaminosos, bons ou maus, e mesmo com a idéia do juízo final. Eu acho, ao contrário, que o amor traz a idéia do final do juízo. Se existe um deus, ele tem que ser sem juízo, amoroso e libidinoso. Em “Mystérios Gozosos”, peça do Oswald de Andrade (“O Rei da Vela”), que celebra a sexualidade, Cristo aparece e um vendedor fala para ele: “Jesus, paz e amor”, e ele diz, “amor nada: libido”, que é a energia do amor.
E no teatro isso é fundamental, porque essa energia circula por seu corpo todo, para você criar e pensar, sua cabeça tem que estar erotizada, para seu corpo se movimentar, para você falar. Toda a origem do teatro é erótica e amorosa. Estudando Dionísio, a gente foi ao encontro disso, e foi uma bênção, só que Freud dizia que era uma coisa terrível, porque a civilização não ia admitir isso, que a civilização era do mal-estar, mas Oswald dizia o contrário, que esse é fermento de uma transformação da civilização, como depois compreendeu o (Herbert) Marcuse.



Aplauso - Você disse uma vez que o seu teatro é, na verdade, uma conversa de homem para homem, conversa franca, uma troca de idéias...
Zé Celso - Não, não é uma troca de idéias, mas sim de energia. É uma troca libidinosa, uma tentativa de transmitir potência, porque eu acho que o grande fato do teatro, de você reunir pessoas, é mostrar que existe uma potência erótica, sexual, que permite você criar não somente filhos biológicos, mas gerar, socialmente, vida, obra de arte e encontros amorosos, amizades, amores, paixões. A paixão é a força-motriz da história. Apesar de vivermos numa época em que é quase insuportável assistir televisão, em que só se fala em dinheiro, é uma coisa nada libidinosa, uma coisa que brocha. O amor libido, paixão, mais do que a economia, é o que move a história.

Aplauso - Então quem chegou a dizer que a história havia acabado errou, não é? Por que se o que move a história é a paixão...
Zé Celso - Essa história de que a história acabou vem no sentido de que chegamos a uma dominação imperial do mundo, mas essa dominação não se estabiliza, ela tem uma visão única, totalitária do homem, da sociedade, da democracia, da família, das drogas, de tudo, e abriga uma porcentagem mínima da população, enquanto a maior parte da população cria uma biodiversidade enorme. A história retorna, eu sou como Nietzsche, por exemplo, Canudos retorna, mas sempre retorna de maneira diferente, não retorna como farsa ou tragédia, mas sim porque a vida tem esse aspecto do eterno-retorno, as coisas vão se modificando, mas a vida é a vida, tem uma visão histórica de que a vida evolui para algum ponto, mas eu acho que não é isso. Eu sou anti-messiânico. Os verdadeiros messiânicos são aqueles que adiam a vida presente para um outro momento ideal, que existiria, que seria exatamente o fim da história. A vida não pára. Estamos aqui, nesta entrevista, neste teatro, aqui está tudo, é o eterno presente, é o que interessa, este momento, é o máximo que você pode tirar deste momento. Daqui a pouco vai ter um ensaio, dependendo do que acontecer nele, influi no espetáculo, você depois desta entrevista se transforma, e a gente vai vivendo nossa história, mas isso não quer dizer que leve para um progresso ou regresso, é a história, que você pode ver como uma novela, individual, ou como um capítulo da vida da sociedade, ou como uma experiência em que você tem toda a sociedade dentro de você. Você tem tudo dentro do seu corpo, e assume tudo que está no seu corpo. Cada vez que você se apaixona você se renova inteiro, como se fosse uma cultura nova. E praticamente todos os trabalhos que eu fiz aqui eu sempre estive apaixonado.





Aplauso - Num texto recente, você diz que “vai ser preciso um movimento de orgulho da cultura e do teatro, como o movimento negro, feminista, gay, ecológico, dos Sem Teto e dos Sem Terra para não permanecermos nessa insensibilidade fascista”, a respeito da falta de estímulo para a cultura no Brasil. O que você sugeriria para superar os efeitos do que você chama “ditadura econômica” em nossa esfera cultural?
Zé Celso - A primeira coisa é você tomar consciência dela dentro de você, porque ela é muito forte dentro de nós, inclusive artistas. A ditadura econômica é forte, você só ouve falar em dinheiro, na televisão, nos jornais. Você encontra as pessoas e uma hora elas não estão com dinheiro para pegar ônibus para ir ao ensaio, ou para comer, ou os que estão com muito dinheiro estão investindo não sei onde. E isso é uma cultura que está obcecando e alienando as pessoas, tirando completamente cada um de si mesmo. Os políticos, na sua maioria, você vê que só tem gente de classe média para cima, não tem representante popular, e essas pessoas todas, peruas ou mauricinhos, são absolutamente colonizados pela cultura da visão única de homem, seja ela no centro ou na esquerda, uma cultura dominante do império americano.
Não sou contra os americanos, porque adoro, por exemplo, o Tenessee Williams, muita coisa americana, mas essa cultura imperial, como a romana fez, coloniza também os políticos brasileiros, marqueteiros, as empresas, então há uma cegueira absoluta. Esse novo movimento cultural é quase uma redescoberta do poder humano, tanto individual quanto coletivo. Eu acho que esses movimentos todos são muito importantes, mas acho necessário também um movimento de recuperação do poder da pessoa humana, que está exatamente na cultura, a educação é extremamente importante, mas você pode ser educado dentro dum parâmetro completamente domesticado. A educação pode ser desastrosa se não é acompanhada pela cultura, em que você tem a experiência da dúvida, da liberdade, da crítica, da não-generalidade das coisas, da especificidade das coisas, e sobretudo da fidelidade que você tem ao seu próprio gozo, porque com a dominação econômica e com a exclusão, as pessoas são obrigadas a abdicar daquilo que elas gostam, que elas gozam, para fazer aquilo que elas têm que fazer para ganhar dinheiro.


Aplauso - No Oficina vocês trabalham por prazer?
Zé Celso - Poucas pessoas trabalham por prazer. Nós, aqui nesse teatro, trabalhamos por prazer, mas nós pagamos um preço caríssimo por isso, pois fogem investimentos e tudo, e esse trabalho que é feito por prazer é extremamente produtivo, produz valor real. “Os Sertões”, por exemplo, este espaço cênico e tudo o que já produzimos, os DVDs com nossas peças, são riquezas, mas barrada por um tipo de submissão de toda a produção cultural à determinação do marketing das empresas, da própria imagem das empresas, a dominação das marcas, que tem por objetivo ver o público, o povo, a pessoa como consumo. Mas a cultura revela outras possibilidades e desperta a imaginação para se encontrar soluções.
Aqui no Oficina estamos com 90 pessoas, nós fazemos coisas de um irrealismo econômico absoluto, mas ao mesmo tempo é de uma importância cultural imensa, a gente está formando muita gente aqui e esse trabalho tem um valor econômico enorme, tanto que estamos sendo chamados para a Alemanha, Bélgica, França, é um trabalho de exportação maravilhoso, além de ser um trabalho que o público adora,. O público vem e a gente cobra preços baratos, porque a burguesia realmente tem receio, medo desse teatro, tem bode com esse teatro, porque acha desconfortável e toca em tabus. Como Antônio Ermírio de Moraes, que diz que eu afastei as famílias do teatro depois de “Roda Viva”, quer dizer, ter essa visão do teatro como um serviço para a burguesia.


Aplauso - Por que tanta gente diz que seu teatro é agressivo?
Zé Celso - Porque as pessoas consideram agressiva a vida sem a casca da hipocrisia. A vida é agressiva, nascer exige uma agressão, e talvez pelo excesso da delicadeza e do amor, porque uma coisa agressiva para mim é essa cultura do “tchau-tchau”, essa frieza, e talvez porque a gente é muito receptivo, a pessoa que é muito encouraçada se sente agredida. O povo de São Paulo é duro, principalmente a burguesia paulista, é tudo careta, está dentro de uma casca e de uma máscara absoluta de hipocrisia, então ela não quer ser tocada, pois se tocar aquilo desmancha e desmorona o botox, tudo desmorona. Uma pessoa que tem uma visão econômica avançada investiria muito no teatro, porque este teatro, com um mínimo de investimento, que ele não tem nenhum, se tornaria algo muito forte.
Nós temos o teatro de estádio aqui, o Oficina tombado, temos condições de fazer uma série de escolas de formação de teatro, que trabalha o circo, o corpo, as religiões africanas e indígenas, que cultuam o corpo, que trabalha acrobacia, a cabeça, a filosofia, o erotismo, a ioga, a gente pode fazer aqui uma coisa maravilhosa, uma universidade de teatro. Nossa cultura aqui é muito forte, a cultura mercantil é muito fraca, se sustenta à base da publicidade, da grana que rola, agora a cultura que existe aqui vai ficar, vai permanecer, mesmo porque o Oficina percorreu os pontos mais fortes do teatro, o teatro japonês, o elisabetano, em Shakespeare, o grego, em “As Bacantes”, o Brasil, em “Os Sertões”, o teatro brasileiro, em “Cacilda!”.

E com o trabalho social que a gente realiza hoje a gente vê como isso é acertado, se a Febem trabalhasse como nós trabalhamos, seria outra coisa. Existe muito preconceito com a maneira que a gente trabalha, mas a gente trabalha dentro de um pensamento contemporâneo, complexo, numa realidade complexa, e valorizando muito a vida e o amor livre, porque a arte e a cultua vêm do amor livre e do cuidado que se deve ter com o amor. Ela existiu no teatro shakespeariano, nos Índios, na antropofagia, o Oficina é uma recriação no tempo de coisas muito arcaicas. A gente está fazendo uma espécie de antropofagia, com a experiência concreta do que se vive no mundo, ao lado do Minhocão, vizinho do Silvio Santos, num país que passou por uma ditadura muito forte, e com uma nova geração despolitizada.


Aplauso - Por que você acha a geração atual despolitizada?
Zé Celso - O Oficina passou a existir quando encontrou uma geração de jovens revolucionários que o fizeram, agora, o MST e os sem-teto são mais aliados da gente nesse sentido. Mas os jovens de hoje vêm aqui, se chocam com o que descobrem aqui, gostam, mas não sabem decifrar ainda. A juventude passou por um processo de desapoderamento de si mesma, ela passou a se encarar como uma fase da vida, que depois passa visando sempre o futuro. A politização para mim é quando você se descobre eternamente poderoso, eternamente criança, jovem, mesmo na velhice, você ser capaz de estar vivo e interferindo nas estruturas que tentam te segurar. A minha geração foi muito legal porque foi chutando os limites, de idade, do vestuário, de sexualidade, alimentação, e a juventude agora está com a cabeça muito feita pelo capitalismo, a coisa de ir atrás do emprego e pronto, de ser fiel a uma imagem, seja uma imagem fashion, tanto que a carreira mais disputada é a de modelo.


Aplauso - Mas o Oficina continua chutando os limites até hoje, é um espaço de crítica permanente. Em “Os Sertões”, por exemplo, você critica um monte de coisas que nem passavam pela cabeça do Euclides da Cunha.
Zé Celso - A vida é chutar os limites. Na época do Euclides, ele fazia as críticas da época dele, no momento em que você refaz o livro, os próprios temas dele trazem outras possibilidades o que ele viu, fundamentalmente, que é o que continua, esses dois Brasis: o de minoria, que se alimenta bem, e o da maioria, que vive economicamente muito mal. Dentro desse país desigual, ele descobriu inclusive que aqueles que estão fora, excluídos, são fortes, encontram possibilidades de sobrevivência, que muitas vezes aqueles que dominam, que estão atrás dos canhões e dos bancos, são muito mais fracos. Eu gosto muito disso no Euclides, ele é muito nietzscheano: a dominação é feita pelos fracos, através das armas, do dinheiro, e da adaptação a uma vida mediana, medíocre. Agora, os fortes, as pessoas que querem viver intensamente a vida, arriscam mais, portanto perdem mais, mas, quando ganham, ganham o gosto da vida.


Aplauso - E quais os planos para “Os Sertões”? Está de pé a idéia de montar o espetáculo inteiro no terreno onde Canudos existiu?
Zé Celso - Está, não só para Canudos, como para o exterior, e aqui para São Paulo mesmo. Mas a gente está fazendo um trabalho que é como um ensaio, montando peça por peça, tirando de cartaz, mesmo quando está um sucesso, para poder seguir a outra, para quando estiverem todas juntas, a gente estudar a maneira de sintetizar. Depois da estréia de “O Homem – da revolta ao trans-homem”, em dezembro, a gente tira férias, e volta em maio para fazer “A Terra”, “O Homem” 1 e 2, enquanto eu e uma equipe escrevemos “A Luta”. Aí a gente vai para a Alemanha, Bélgica e talvez França, volta e começa a fazer “A Luta”. Da França veio uma proposta absurda de fazer tudo em 24 horas, mas é que eles não sabem que é o mesmo elenco em todas as peças. Isso é uma coisa que nós estamos descobrindo ainda, como fazer, como ganhar energia, porque quando você for fazer tudo, você vai ter que ter uma cena do almoço, depois cenas de dormir, cenas de acordar, de fazer exercício com o público, para renovar energias. A gente não sabe como vai ser, mas ainda estamos no meio da viagem.

Sobre o Rei da Vela de Oswald de Andrade


ENTREVISTA DE JOSÉ CELSO PARA O PROGRAMA DO FESTIVAL DE BOBIGNY, FRANÇA
Por que você decidiu montar O Rei da Vela?
Porque estávamos, depois do golpe de 64, perdidos, sabendo que o que tinha sido pensado antes não era mais o mesmo. O país tinha entrado em outra e era preciso descobrir o que estava acontecendo. Pedimos a dramaturgos, cineastas, estilistas, artistas plásticos, para nos enviarem peças, curta-metragens, vestidos, trajes que sintomatizassem essa grande mudança que havia no ar, aliás, em todo mundo não somente no Brasil, e iríamos fazer um espetáculo com essas contribuições todas. Mas nada que vinha nos revelava nada. Até que uma leitura em voz alta do Rei da Vela feita por Renato Borghi num apartamento da Vieira Souto em Ipanema para um grupo resumido de amigos, revelou a potência inclusive retórica do texto que procurávamos. Estava ali. Havia sido escrito de 1933 a 1937, nunca tinha sido montado e iluminava todo momento que estávamos passando. Eu fui para a casa do filho de Oswald, Nonê, com sua primeira mulher, uma francesa, e me atirei no Baú onde estava toda a obra do pai. Li tudo. Virei. Em um mês e meio montamos a peça, ela já estava em nós. E foi a maior revolução cultural que o teatro fez na história do Brasil pelo menos. Pois não ficou só no Teatro, se alastrou como peste no movimento tropicalista que hoje se alastra no movimento mix, no mundo inteiro. Caetano Veloso e Gilberto Gil, são seus divulgadores no mundo, mas cada vez mais aparecem estudiosos que querem saber de donde vem essa grandeza que é deles mas também da libido cultural que a cultura brasileira tem a dar ao mundo e que tem em Oswald sua maior antena.
O que você aprendeu com a montagem de O Rei da Vela?
Que tudo é possível em teatro e na vida. Que a arte tem poder, valor. Oswald escreveu um de seus primeiros livros de poesias, bem pequenininho, com o titulo parodiando as “Indústrias Reunidas Matarazzo: “POESIAS REUNIDAS O.A.” e dizia que suas poesias eram mais poderosas do que as mega indústrias de São Paulo de então. Eu acredito inteiramente. Por isso sua poesia nos faz derrubar paredes, construir teatros e agora se encaminha para o poder maior. O Oficina é cercado de todos os lados por prédios de um magnata da TV, um grande artista animador que foi um camelô: Silvio Santos. Todo o Bixiga quase é propriedade do seu grupo SS – Grupo Silvio Santos. Depois de 25 anos de luta, vamos nos aliar e construir o teatro de Estádio sonhado por Oswald. Quando falo em poder falo em Poder de Presença Humana diante da Presença do Poder Maquínico. Poder das máquinas de desejo como as do Teatro Oficina diante das máquinas castradoras e de especulação do capitalismo. Oswald misturou valores do erudito e do popular, do brega do cafona e do requintado, do político e do alienado, da retórica mais rigorosa e sublime a demagogia, do baixo calão, da eloqüência da vulgaridade, sem perder grandiosa Poesia de toda a vida . Um Maiakoviski muito mais engraçado .
Qual foi a repercussão cultural e artística de O Rei da Vela?
A de catalisadora de uma Revolução Cultural. Pela primeira vez viam-se as figuras dos quadros modernos, da literatura, da música, incorporadas, num corpo de atriz ou ator, na cena, na cenografia, cenografia paródica de Helio Eichbauer, e de seus figurinos, trazendo nos seus três atos cada qual um estilo: ópera, cubismo, teatro de revista, o visual mais marcante do Tropicalismo. Foi para o Cinema, para Moda, para a Luta Armada, para o desbunde, para tudo. Redescobria-se um Brazil, que apesar de colonizado, explorado, devorava seus dominadores e trazia intacta na vida de seu povo o dionisismo, a antropofagia, o carnaval da Grécia do Brasil. Essa revolução continua até hoje, mas soterrada outra vez pelo AI 5, mas que agora no cinqüentenário da morte de Oswald, é retomada, assim como o embrião castrado do 68 no mundo inteiro, que continuou por exemplo aqui no Oficina a ser sempre estudado, amadurecido e vivido sempre com a eternidade do seu aqui agora.
O que você descobriu culturalmente com O Rei da Vela?

Que a Cultura é o fator de maior riqueza e poder do Brasil e que deve dirigir a linha do Banco Central. Felizmente nesse momento nós temos um Oswaldiano no Ministerio da Cutura: Gilberto Gil, juntamente com Celso Amorim nas relações exteriores, são as duas pessoas mais carismáticas e práticas do Governo Lula. Forte no sentido da força da presença transhumana que vale tudo, e que o capitalismo nesta fase hegemônica despreza até na figura humana do próprio capitalista. Seu maior adversário não é a ONG terrorista Al Kaeda, mas a própria vida que não sabe mais nem capitalizar e que joga fora, exclui, ignora ,extermina.
Qual a diferença entre a peça e o filme O Rei da Vela?
Antes de Noilton Nunes e eu partirmos para a montagem do Rei da Vela, nós tiramos um master com todo material filmado e deixamos pré-montado o primeiro, o segundo e o terceiro ato da peça tal como foi montada no Teatro. Hoje há muito interesse em se conhecer a versão teatral que foi extremamente bem filmada por Carlos Alberto Hebert e Rogerio Noel, falecido,com som direto muito bem feito por um Seu Riva, também falecido. Nossa montagem, minha e de Noilton, começa pelo fim da peça e numa montagem não linear fomos ao mesmo tempo que ,juntando todo o material filmado em 1971 - parte no Teatro João Caetano durante uma temporada da peça no Rio e parte em externas, na Semana de Páscoa deste mesmo ano inserindo a própria luta em torno da preservação do filme e do que ele significava como link entre o trabalho passado e o futuro. Tivemos no Oficina uma coisa rara. Morremos uma época totalmente, como Grupo visível, vivendo uma vida subterrânea louca, criativa, mas no completo ostracismo, mortos. Depois ressuscitamos mais fortes do que no primeiro nascimento. O Rei da Vela foi o elo de ligação entre essas duas vidas. Ao mesmo tempo Noilton tem até hoje lutado para fazer um filme sobre Euclides da Cunha na Amazônia, “Paz” na época o projeto chamava-se “Sem Fronteiras”. Ele como eu tinha material de família feito pelos pais e tinha de uma Tragédia: a morte do pai, da mãe, do irmão, num desastre automobilístico. Misturamos nossas paixões e energias e montamos uma mandala apaixonada, por tudo que se passava entre nós e por tudo que cada um de seu lado tinha vivido. Demos nossas vidas, misturamos no filme os dos nossos pais, nossos desejos, tudo ao O Rei da Vela pra que ele tivesse a vida vivida vinda da nossa paixão pelo cinema, por nos mesmos, pelo Brasil que começava a sair da ditadura. Acho que o filme a cada ano que passa é mais rico, porque foi tecido na montagem com rigor, liberdade e inspiração. As vezes chorávamos muito na moviola. É uma tapeçaria de uma ligação muito forte numa época difícil do Brasil em que Abelardo II subia ao poder na abertura lenta, gradual e restrita e o povo continuava na Jaula, sob o domínio de Mr. Jones. Foi proibido pela censura, Liberado para o exterior. Foi para O Festival de Berlim. Teve uma exibição suntuosa na Cinemateca de Paris. Foi para a Índia, e muitos outros países, mas nunca teve um lançamento normal, comercial aqui no Brasil. Quando o filme ficou pronto a Embrafilme estava muito empobrecida a ponto de fechar como distribuidora. Conseguimos com muito custo um lançamento no Rio. Pai Gilberto, um pai de santo, nos apoiava e nos orientava a fazer um trabalho para Exú pondo todo dia na Embrafilme um despacho na portaria. Até que cedessem. E cederam. Concordaram em começar a pensar em distribuir. Na estréia do filme organizamos um Bori, uma refeição de candomblé em que se comem todos os deuses. Pai Gilberto preparou para 300 pessoas. A comida fica no chão em folhas de bananeira e palmeira. Um office boy do Oficina entusiasmou-se muito e soltou um rojão que explodiu um carro Volkswagen estacionado na porta. Fomos todos presos no cinema. Uma parte do publico ficou de dentro e outra de fora e nós os diretores fomos terminar a estréia na delegacia de Copacabana. Mas o filme foi exibido muitas vezes e cada vez com mais sucesso. No dia do cinqüentenário de Oswald ele foi exibido no CINE SESC em São Paulo com uma cópia que tenho há 22 anos, com legendas em inglês e foi um arrebatamento. Agora vamos lançá-lo em DVD.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

1 - O TEMPO DOS BANDOS - JEAN-PIERRE THIBAUDAT - Série Artigos Sortidos


Apresentação

O artigo que se segue, publicado em julho de 1991, no jornal Libération, relatava a explosão do teatro de grupo na França no começo dos anos 90. Para melhor abordá-lo é preferível recolocá-lo em seu contexto.
Em maio de 1981, a chegada da esquerda ao poder e com ela a de Jack Lang no Ministério da Cultura tiveram por resultado uma duplicação do orçamento destinado à cultura. Um maná financeiro e oportuno para artistas que haviam sido freqüentemente maltratados por ministros da cultura de direita como Maurice Druon, mesmo que outros ministros como Michel Guy ou Jacques Duhamel tivessem sabido escutá-los melhor. Longe de repor nos trilhos o sistema da organização teatral, que apresentava sinais de envelhecimento e esclerose, esse maná orçamentário congelou o sistema vigente ao torná-lo financeiramente confortável.


Era, e ainda é, um sistema piramidal: no alto cinco teatros nacionais financiados essencialmente pelo Estado (o Ministério da Cultura que nomeia os diretores), depois uma vintena de Centros Dramáticos Nacionais, paritariamente financiados pelo Estado (Ministério da Cultura) e pelas coletividades regionais; a nomeação do diretor sendo objeto de acordo entre essas instâncias. Essas estruturas são dirigidas, com raríssimas exceções, por artistas. No início dos anos 90, são homens (raramente mulheres) que pertencem essencialmente à geração do maio de 68.


Depois, menos dotadas financeiramente, mas muito numerosas (por volta de duzentos) aparecem outras estruturas: Palcos Nacionais e Casas da Cultura (com financiamentos cruzados), teatros municipais e outros, muito freqüentemente com a direção dos programadores, por vezes bem a par da criação contemporânea, mas amiúde medrosos, consensuais, espécie de notáveis da cultura. Em suma, a França está povoada de salas de espetáculos. Mas muitas companhias teatrais não têm espaços, elas reclamam por lugares onde trabalhar. É o caso, em geral, daquilo que nomeamos os “bandos de teatro”, que correspondem, grosso modo, ao que no Brasil se chama teatro de grupo.


Em francês a palavra bande (bando) é habitualmente aplicada aos bandidos, meliantes. Aplicá-la aos grupos de teatro da nova geração não deixava de ser certa, e voluntária, provocação. Era frisar como esses bandos contestavam o sistema vigente, cada um fazendo seu “bando à parte” (“bande à part”), para retomar o título de um filme de Jean Luc Godard. E unificá-los com este vocábulo era dar um nome a um movimento real, porém freqüentemente informal e atomizado. Era reuni-los.


Acrescentemos que a paisagem descrita no artigo que se segue está longe de ser exaustiva. Faltavam, entre outros, Jean-Luc Lagarce em Besançon (que viria a morrer em 1995 e que é hoje o autor francês contemporâneo mais montado na França), Stanislas Nordey, Olivier Py, Pascal Rambert ou ainda La Volière Dromesko, o grupo Ilotopie.
Notemos, enfim, que esta explosão dos bandos surge também em um momento em que a idade de ouro da direção, do diretor como único dono da obra, chega a seu fim. No ano precedente, em 1990, Antoine Vitez morreu bruscamente e Patrice Chéreau deixou o Théâtre des Amandiers para se dedicar ao cinema.


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O tempo dos bandos
Jean-Pierre Thibaudat





Eles têm entre trinta e trinta e cinco anos, fazem teatro de grupo e estão longe das trupes e das grandes máquinas institucionais. Em dez anos, juntos e cada qual em seu canto, eles se impuseram à paisagem teatral francesa, como um campo de resistência em que a vida passa pelo teatro. E o teatro pela vida.

Nova geração? Emergência de uma vanguarda? Troca de turno? Não, nada a ver. Como definir sem trair, reunir sem reduzir, as aventuras cujos número, cruzamentos, modo de funcionamento e de produção constituem, de agora em diante, uma outra paisagem no teatro francês? Uma paisagem evidente, nem sempre aparente, quase nada espetacular. Algo como um campo, uma rede de resistência, uma maneira de fazer teatro de banda, em bandos. No isolamento (esplêndido), mas plural.
As expressões “jovem diretor talentoso”, “personalidade forte”, “uma estrela que nasce” – não, isso também não tem nada a ver. Desconfiam dos slogans, das febres midiáticas que duram o tempo de um comichão, das páginas people, dos especialistas, dos superprofissionais, de toda hipertrofia individualista. Eles reencontraram a palavra comunidade. Redescobriram que a união faz a força do teatro. Sabem o que querem dizer as épocas já esquecidas da “trupe permanente” e da “criação coletiva”. E não querem nada disso. Não é a deles, não é sua época, sua filosofia. Eles são vários fazendo teatro “juntos”, mas cada um existe por si próprio. Ser e fazer, entre eles, conjugam-se no mesmo indicativo.
Não é uma tendência sazonal, um conceito para o verão, a espuma de um dia ou de um jornal, é uma corrente submarina. Que vem de longe. Uma obstinada escolha de vida que passa pelo teatro. Escolha teimosa de teatro que passa pela vida. “Fazer teatro não é uma sucessão de encenações, é uma escolha de vida”, diz Chantal Morel, do grupo Alertes. E Christian Schiaretti: “Um espetáculo não é uma performance, mas expressão pontual de uma moral contínua”.


A maioria deles tem entre trinta e trinta e cinco anos. Fazem teatro em bando – legalmente, obriga a subvenção, chama-se companhia dramática – desde o início dos anos oitenta. Há uns dez anos. Já não são iniciantes, nem signatários de “espetáculos promissores”. Eles são. Tal como eles são. À margem, fora do teatro habitual. Mas, quando podem, quando querem, eles sabem ocupar a artilharia pesada das instituições. Com o risco de se fazer alvo.
Conhecidos ou desconhecidos, não aspiram – como as companhias da AJT (Action pour le jeune théâtre, Ação pelo teatro jovem) dos anos setenta – a tomar o lugar dos abonados. Não é que as roupas das instituições maiores ou menores não sejam de seu tamanho, mas são vestimentas com as quais eles não têm o que fazer. O sucesso, quando acontece, os conforta em seu radicalismo. Assim são o teatro do Radeau (François Tanguy), o Royal de Luxe (Jean-Luc Courcoult) ou o Théâtre Machine (Stéphane Braunschweig). Esse trio não é um quadro-de-honra, mas um conjunto de exemplos. Isto vale para tudo o que se segue.


Em dez anos, sob o governo Mitterand, portanto, eles viram a paisagem do teatro institucional aqui se fossilizar em espetáculos de funcionários (“preencher o caderno dos cargos”), ali deslizar para o estrelato, o efeito-espetáculo de espetáculos de efeito. Viram a distribuição aviltar-se como casting, a empreitada teatral virar teatro concebido tal como uma empresa (PME – Pequena e Média Empresa), o público tornar-se um alvo, um álibi (sala cheia). Viram o ibope valer como exigência. Viram diretores serem para o teatro o que os apresentadores de telejornal são para a informação. Viram o triunfo daquilo que Michel Deutsch nomeia o “neo-boulevard”. Viram a apoteose da caixa registradora e consensual de um consumo de clássicos bem ilustrados.


Eles viram isso. Sem que isso engendre entre eles nem um excesso de ódio, nem a menor inveja. Antes uma indiferença, uma incompreensão. Às vezes raiva. Esse teatro não lhes dizia nada. Então, eles não conversaram com ele. Isso trouxe conforto a seu modo de trabalhar autonomamente em relação a esse vasto sistema institucional que, de resto, funcionava fechado em si mesmo: as grandes casas se convidavam, se co-produziam etc. Eles souberam muito cedo que só deveriam contar consigo mesmos, isto é, com alguns poucos.


Alguns itinerários semeados com espetáculos e alguns professores acompanharam a formação de muitos. A Emballage Théâtre tirou seu nome de Kantor, que é uma referência constante de Cantarella e de muitos outros. Pina Bausch retorna freqüentemente às conversas, Wilson, Grüber também, e Tarkovski. “Aqueles que nos influenciam são freqüentemente criadores que tentaram ir além do teatro”, resume Thierry Roisin, do grupo Beaux Quartiers. Xavier Durringer, orientador da Compagnie de la Lézarde, que nunca viu um espetáculo de Chéreau (não conta vantagem disso, é simplesmente assim), lê e relê os escritos de Scorsese. O Ballatum Théâtre gosta em Chéreau de “sua ausência de discurso, seu lado à flor da pele”, mas “pressente” que seu teatro, como o de Lassalle, “não é nosso mundo – eles fazem parte da História”, diz, a seu modo, Stéphane Braunschweig. O Ballatum foi fazer um estágio com Grotowski, de quem pegou um tanto e depois deixou.
Na França, dois faróis os iluminaram melhor do que outros: Régy e Vitez. Hélène Alexandridis, Marc François, Etienne Pommeret, Xavier Marchand e outros tiveram Claude Régy como professor no Conservatório de Paris. Preciosos são seus espetáculos e tanto quanto, senão mais, sua posição atípica na paisagem, suas escolhas de textos, sua exigência, sua obstinação em não fazer pacto, nem em se instalar. Eles se reconhecem, quando Régy escreve (em Espaces perdus, éditions Plon): “eu acredito nas intersecções, não acredito no confusionismo. Acredito no princípio do exagero, na utopia, na não-rentabilidade”.


Stéphane Braunschweig não é o único a ter sido aluno da escola Deillot na época de Vitez. “Era uma autoridade moral, a única pessoa da instituição com quem se podia entrar em polêmica, e não há ninguém para substituí-lo, diz ele. Com sua morte, de um dia para o outro, eu me afirmei cada vez mais como diretor teatral e cada vez menos como diretor de grupo”.
De grupo. Não de trupe. O grupo, o bando, é uma comunidade aberta. A gente entra, sai, volta. “A gente se atém ao termo grupo, o termo companhia nos incomoda”, diz Thierry Roisin. Solicitada aqui e ali como diretora, Isabelle Pousseur pretende não renunciar ao essencial: “a constituição de uma equipe de trabalho: dividir a criação e juntar forças e tudo o que gira em torno do fenômeno do risco, do desafio, da expedição aventurosa”. “Grupo é também uma resposta à economia do teatro: a gente engole sapo mais facilmente juntos”, dizem Eric Lacascade e Gui Alloucherie, as duas cabeças-de-ponte do Ballatum Théâtre.


De um bando a outro, os salários mensais oscilam em média entre 7.000 e 10.000 francos. Vacas magras. Eles se viram com isso. É que desconfiam do mercado, de suas leis, das produções deformadas em produtos, da rentabilidade imediata, do fazer por fazer. “Não trabalho para o imediato”, diz Bruno Meyssat, do Théâtre du Chaman, “é o que se deposita na memória que conta. Sou mais do tipo lento. Se não tenho nada para dizer e para fazer, por que ir além?”.


Se os tempos de ensaio são freqüentemente longos, é também porque o espetáculo que está no fim é menos uma finalidade (um produto) do que uma base do modo de produção. É preciso “renunciar a certas balizas”, diz Radeau, “ter paciência” para que “no espaço que sempre se move da sala de ensaio surjam novas formas, novas ocupações, embora efêmeras, menos precisas”. O lugar desse teatro de bando não é propriamente um teatro bem equipado, uma sala de espetáculos superconfortável, é precisamente um lugar. Um local. “Espaços livres, espaços vazios, em que tudo pode ser inscrito”, nota Régy. “Um espaço de experiência, completamente fora do campo da produção”, reivindica o belga Jacques Delcuvellerie, do Grupov. Marc François sonha com um “lugar atípico, vago, desligado de sua função inicial, mas não vazio”. Locais onde demorar-se, devanear, viver. Sem palcos rentabilizados a serviço de ensaios intensivos, cadenciados. Utópico? E então...


Sem esperar uma bênção do Ministério, constituiu-se de fato uma outra rede ao lado da rede dos grandes palcos institucionais. Onde se acompanham co-produtores-diretores (ler artigo anexo). Sem distinção por gerações. O próximo espetáculo de Régy é co-produzido pela rede alternativa. Em Montluçon, os Fédérés vão receber o Ballatum e co-produzir a primeira encenação de Gabily com atores vindos do bando de Braunschweig. O APA (Atores Produtores Associados), em parte formado por atores de idade e história diferentes (alguns como André Wilms e Evelyne Didi, viveram os anos TNS de Jean-Pierre Vincent), participam dessa paisagem de bandos garantindo uma não-atuação mínima. Quando Michel Deutsch, Jean-Paul Wenzel (dos Fédérés) e André Wilms (do APA) se encontram em Avignon duas noites sem teatro aberto, eles assinam um espetáculo e um bando que marca uma ruptura com aquele que foi por muito tempo seu partidário: Jean-Pierre Vincent. É preciso “atacar novamente” o teatro, como diz Olivier Perrier (o outro pilar dos Fédérés). Como franco-atiradores. É este o tempo dos bandos.


Aí existe um sopro. No Ministério da Cultura, o projeto que visa reativar as três salas do Théâtre de la Cité Internationale vai parcialmente na direção deste vento. Sua nova diretora, Nicole Gauthier, vem, aliás, do ONDA (sigla, em francês, para Escritório Nacional de Difusão Artística), de onde Philippe Thiry encorajou financeiramente mais de um bando a por seus espetáculos para rodar. No Ministério das Relações Exteriores, Jean Digne, o novo diretor da AFAA (Associação Francesa de Ação Artística), e seus colaboradores (entre os quais Jean-Jacques Samary, ex-Libération) criaram um “colégio teatro” com quinze diretores e grupos que, em ordem alfabética, vai de Stéphane Braunschweig a Christian Schiaretti. A Academia Experimental dos Teatros, dirigida por Michel Kokosowski, que vai se instalar no Théâtre du Rond-Point, organiza oficinas, encontro entre atores e diretores antigos e novos, franceses e estrangeiros. Enfim, nesses últimos, viu-se em Rennes, Strasbourg ou Dijon (ler texto anexado) serem criados novos festivais centrados nesses grupos. O Festival de Avignon (Morel, Meyssat, Pousseur, Anne, Rambert, Royal de Luxe, Zíngaro foram programados na mostra principal) e, em menor medida, o Festival de Outono (o Radeau está no programa pelo terceiro ano consecutivo) não os ignora.


Caso julguemos pelas programações da próxima temporada que nos chegaram, parece que esse vento sopra cada vez mais forte. Tudo é possível. Do furacão à tempestade num copo d’água, sem esquecer a brisa leve da recuperação ou o chuvisco do compromisso.


Neste dia, às 17 horas no pomar Urbain V, Libération co-organiza um encontro com sete desses bandos. Resenha no jornal de quinta-feira. Então, a acompanhar.


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Pósfácio

Dezessete anos depois de sua estrondosa emergência, o que se tornaram esses bandos? Antes de passá-los em revista, constatemos que eles não puderam vencer a inércia de um sistema que ainda é vigente, mesmo que diferentes reformas tenham tentado melhorá-lo de dentro.


Não é espantoso portanto que a maioria tenha acabado por jogar o jogo da instituição, aceitando a direção de uma estrutura. É o caso de Stéphane Braunschweig, que foi diretor do teatro nacional de Strasbourg e prepara-se para assumir a direção do Théâtre de la Colline em Paris, de Christian Schiaretti, que depois do CND de Reims está hoje à frente do Teatro Nacional Popular de Villeurbanne, é também o caso de Olivier Py, que depois do CDN de Orléans foi levado à direção do teatro do Odéon em Paris. Citemos ainda Thierry Roisin que está no CDN de Béthune e Pascal Rambert que, no ano passado, substituiu, à frente do CDN de Gennevilliers, Bernard Sobel, que foi um dos raros diretores da antiga geração a acolher em seu espaço os bandos de teatro. Por fim, Robert Cantarella, depois de ter dirigido o CDN de Dijon, prepara-se para dirigir em Paris o 104 com Frédirick Fisbach, novo espaço financiado pela prefeitura de Paris.


O caso do Ballatum Théâtre, co-dirigido por Eric Lacascade e Guy Alloucherie, é significativo. Sem poder convencer as autoridades a estabelecer para eles um espaço próprio, num depósito de uma mina de sua região natal, o norte operário, resolveram aceitar a direção do CDN da Normandie, longe de seu feudo. Mas o Ministério só tolera as direções nomeadas e recusa as direções colegiadas. Lacascade foi então nomeado. A dupla não resistiu e Alloucherie voltou ao norte para fundar sua própria companhia. Lacascade ficou por nove anos à frente do CDN e quando saiu, há dois anos, tomou-se como pretexto o déficit que ele deixara para privá-lo de subsídios. De fato, o governo de direita o fez pagar por sua atividade intensa no movimento de protesto da profissão (o governo queria prejudicar o regime de seguridade social e de desemprego de artistas). E por ter sido a vanguarda do combate que levou à anulação de uma edição do festival de Avignon.


Um outro caso significativo, o de Stanislas Nordey. Nomeado para a direção do Théâtre Gerard Philipe de Saint Denis em 1998, ele preconiza um “teatro cidadão”, decide dividir a subvenção de seu teatro com vários grupos e tenciona colocar o espectador no centro da representação. Durante dois anos foi uma louca efervescência, mas uma gestão arriscada pôs termo à aventura. Hoje Nordey dirige a escola de atores do teatro nacional de Bretagne. Como inúmeros artesãos do teatro de grupo, ele se preocupa com transmissão e formação.


Xavier Duringer, por sua vez, voltou-se para o cinema, a companhia Emballage Théâtre acabou. Alguns como Bruno Meyssat e Chantal Morel ficaram fora das instituições. Assim como Marc François, hoje morto. Didier-Georges Gabily desapareceu tragicamente em 1995, deixando seu grupo, T’chan’G, sozinho. Mas vários de seus atores, como Jean-François Sivadier, Yann-Joël Collin, Serge Tranvouez ou Nadia Vonderheyden, prosseguindo suas carreiras de atores, tornaram-se apreciados encenadores.


Fica um lugar emblemático, uma grande conquista: a Fonderie (Fundição) em Mains (cidade do oeste a uma hora de TGV de Paris) do teatro do Radeau (dirigido por François Tanguy) aberta em 1992. Um lugar mágico que é, para o teatro de grupo dos anos 90, o que a Cartucherie de Vincennes foi para a geração de 68. Instalado numa antiga garagem para ônibus, é um lugar à parte onde sopra o vento do pensamento e a brisa da amizade, um lugar de trabalho aonde os grupos vão trabalhar, ensaiar, encontrando aí abrigo. Foi um longo combate para obter a perenidade e o financiamento desse projeto que queria ser “um lugar de trabalho permanente, não de espetáculos”, uma enseada de paz onde dar tempo ao tempo, longe do circuito cada vez mais mercantil das salas de espetáculos. Uma oficina permanente. O lugar acabou por surgir e nunca derrogou seu espírito. Ao longo dos anos a Fonderie cresceu. François Tanguy, esse poeta do palco, aí modela espetáculos de beleza inigualável, que cria em um subúrbio da cidade, debaixo de uma tenda. Claude Régy, que com mais de oitenta anos permanece um modelo de irreverência e de exigência para essa geração dos bandos, gosta de demorar-se algumas noites na Fonderie cujo projeto ele apadrinhou.


Não é espantoso observar, para concluir, que é nesse teatro dos bandos que se encontrou ou reencontrou-se o fermento político abandonado pela maioria de seus antecessores. A guerra do Golfo, a guerra da Bósnia, Ruanda, para citar apenas essas três tragédias, ocuparam a vida e os espetáculos mais radicais entre eles.
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Matéria coletada da Camarim 42.
As fotos desta matéria não são de bandos franceses, mas são nossos companheiros da Terreira da Tribo e são bando.Quanto as fotos do nosso bando, veja várias em http://www.fotolog.com/teatro_furia
se desejar.
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

2 - ENTREVISTA DE CHRISTIAN FERRER - Série Anarquistas Teóricos Práticos


A diferença entre especialistas em uma área do conhecimento e pensadores está em suas vestimentas. Enquanto títulos e denominações caem bem para especialistas, qualquer alcunha definitiva, quando traja pensadores, mais se assemelha a uma veste apertada.
O argentino Christian Ferrer toma parte deste segundo grupo. Como pensador, habita um lugar onde os saberes se hibridizam e, por meio da forma ensaística, leva seu pensamento ao limite do desconforto e do desamparo -pois somente um pensamento livre pode ser forte o suficiente para optar pela condição de desamparado.
Debruçando-se sobre diversos domínios, do pensamento político à crítica da técnica, passando pela comunicação e seus objetos contemporâneos (a pornografia incluída), Ferrer atua numa zona sem fronteiras entre a sociologia e a filosofia, entre os territórios político e existencial.
Talvez, a única alcunha a que Ferrer se permita seja a de anarquista, "anarquista heterodoxo", sendo seu projeto intelectual marcado pela luta e paixão por um pensamento libertário. A anarquia seria, assim, não só um vislumbre longínquo e remoto de um amparo político, mas uma ferramenta para a compreensão de um estado de coisas, sempre histórico, e que se traduz em uma postura que recusa o silêncio diante do intolerável.
Quando esteve no Rio de Janeiro em 2003 para participar do seminário “O Eu em Rede: A Subjetividade na Cultura Digital”, promovido pela Universidade Cândido Mendes com o apoio da Unesco e no qual também estavam presentes Edgar Morin e Jean Baudrillard, Ferrer apresentou o ensaio “Dolor, Técnica, Pornografia - Del sufrimiento sin sentido a las ilusiones informático-biotecnológicas”.
Revelando uma retórica de crise, porém, movida por uma potente convicção e emoldurada por um lirismo crítico, Ferrer tematizou o apaziguamento do sofrimento contemporâneo pelas tecnologias de conforto que nos atravessam -dos psicofármacos medicalizadores da existência à ilusão de felicidade e prazer prometida pela pornografia.
Apesar de não ser especialista, daqueles que abotoam tão ajustadamente o colarinho das titulações, Christian Ferrer (nascido em 1960) é sociólogo de formação e professor de Filosofia da Técnica e Filosofia da Linguagem na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires.
Publicou “El lenguage libertário – Antologia del pensamiento anarquista contemporâneo” (Editorial Altamira); a coletânea de ensaios “Cabezas de tormenta – ensayos sobre lo ingobernable” (Pepitas de Calabaza Ed.); assim como uma compilação de ensaios sobre o poeta e ensaísta Nestor Perlongher, sob o título “Prosa plebeya” (Editorial Colihue); ainda “Lírica social amarga”, uma compilação de escritos inéditos de Ezequiel Martínez Estrada (Pepitas de Calabaza Ed.); e “Mal de Ojo – crítica de la violencia técnica – indagacíon sobre el drama de la mirada” (Editorial Octaedro). Fez parte dos grupos editores das revistas “Utopía”, “Fahrenheit 450”, “La Caja” e “La Letra A”. Atualmente, integra o corpo editorial das revistas “Artefacto – pensamientos sobre la técnica” e “El Ojo Mocho”.
Apenas dois de seus ensaios foram publicados no Brasil, "Mistério e Hierarquia" e "Gastronomia e anarquismo – vestígios de viagens à patagônia", na revista “Verve” (números 1 e 3), organizada pelo Nu-Sol (Núcleo de Sociabilidade Libertária do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP). Ambos estão disponíveis na internet e constam originalmente do livro “Cabezas de tormenta”. O livro “Mal de Ojo – crítica de la violencia técnica” já está traduzido para o português, mas ainda não possui editora.
Ferrer é, antes de qualquer denominação, um ensaísta, habilidoso artesão das palavras que aproxima a prosa acadêmica de uma vigorosa poesia do pensamento. Seus ensaios se sustentam sobre uma escritura repleta de imagens e idéias em constante movimento, doce ironia e sutil melancolia, sempre com a força do desamparo, amparada na liberdade da anarquia. A entrevista que se segue foi feita por e-mail.

Li em alguma nota biográfica que você se considera um "anarquista heterodoxo". O que isto significa? A anarquia não implica, em si, uma heterodoxia?
Christian Ferrer: O anarquismo tem sido uma heresia moderna persistente e ao mesmo tempo o ideal antípoda da hierarquia. Por não contar com um livro sagrado único ou de um único fundador, por renegar o partido político como "ferramenta" organizacional e por "amparar" primeiramente a liberdade de decisão pessoal, o anarquismo foi em si mesmo uma heterodoxia, quer dizer, um arquipélago de individualidades e agrupamentos que não se acoplavam facilmente entre si e, portanto, sua história conteve uma notável variedade de fauna e flora.
Seu uniforme sempre foi proteico (no sentido de Proteo, deus grego que se metamorfoseava a gosto). O único mistério não revelado de sua história se encontra na esfera da "escuta política" que lhe foi destinada faz 100 anos. Em certas cidades e certos países, o anarquismo constituiu uma paixão popular, um feito histórico difícil de interpretar se considerarmos o estilo feroz da crítica libertária e seu estilo de "garra". Para mim, o anarquismo é o lugar onde encontro amparo político e esse lugar é pequeno como a cabeça de um alfinete.


Que avaliação você faz do Brasil no governo Lula?
Ferrer: Gostaria de poder dar uma resposta correta a essa pergunta, mas careço de conhecimento profundo sobre a história e a cultura brasileiras. E a Argentina é um país um tanto distinto do Brasil. O Brasil teve escravidão até pouco mais de um século atrás, e essa mentalidade não desaparece de um dia para o outro.
A Argentina conheceu várias etapas de acumulação de poder popular, começando com os sindicatos anarquistas e socialistas do início do século XX e continuando com a ascensão do peronismo na metade desse século. Há 50 anos que o pobres nascem na Argentina com uma importante consciência de merecer direitos sociais e cívicos, ou, mais ainda, com a certeza de que um despossuído merece uma dignidade, a da ascensão social e a da possibilidade de impor sua cultura.


Como está a produção de pensamento na Argentina? Pesquisando na internet, encontrei um dossiê chamado "Revista de Revistas: Argentina", feito por Miguel Valladares, Coordenador Bibliográfico de Dartmouth College (2003), no qual há um levantamento da quantidade de revistas acadêmicas e privadas em atuação. Impressionante. Cito os números: revistas de crítica literária, lingüística e criação literária – 68; revistas de arte, teatro e cinema – 22; revistas de ciências sociais e estudos culturais – 70...
Ferrer: Há uma grande quantidade de revistas publicadas na Argentina e acrescentaria que podemos enumerar muitas outras, especialmente no âmbito cultural. Contudo, a importância da produção cultural e científica em um país não pode ser julgada por números e, sobretudo, não deve ser julgada pela compulsão pela "produção" de conhecimento. O saber é um dom, e não uma conquista, é conseqüência da curiosidade humana e não da industrialização universitária ou editorial, que é conseqüência e não o seu motor.
O apetite cultural é tradicional na Argentina, mas creio que é mais importante prestar atenção ao fato de que as revistas literárias e culturais, incluindo as acadêmicas, costumam ser órgãos de defesa de idéias e linhas de pensamento, mais que publicações "neutras". Talvez a cultura seja a forma desesperada pela qual a Argentina tente fugir da barbárie sempre escondida e à espreita, uma vez que há uma linha tênue que mantém a Argentina ligada a suas origens européias, que são míticas, mas ainda estão ativas.


O mundo intelectual argentino ainda sente os efeitos da ausência de liberdade impingida durante o regime militar? Qual foi a conseqüência disso?
Ferrer: Argentina é, depois da experiência da ditadura, um país perverso. O pensamento argentino ainda não conseguiu dar conta da matriz cultural que possibilitou a destruição de corpos, vidas e experiências políticas. A metáfora da repressão tem sido dominante, mas é questionável que ela possa dar conta dos contornos do ocorrido. Ninguém passa por um inferno sem sair escaldado e nenhum país passa pela experiência de um massacre sem que sua alma fique corrompida.

O cinema argentino é, hoje, é a principal expressão de um país que está superando uma imagem de crise, mas, ao mesmo tempo, é alimentado por ela. Isto é um fenômeno exclusivo do cinema ou outras artes compartilham essa mesma vitalidade na Argentina?
Ferrer: Sem dúvida, há outras expressões culturais que merecem ser levadas em conta, em especial quando se considera que a cultura é a seiva oculta de um país, e não os frutos tardios de uma árvore, quer dizer, sua decoração.
No caso do jovem cinema argentino, sua "visibilidade" é efeito de um "parricídio exitoso", conseqüência de sua desobediência em relação ao modelo anteriormente vigente de construção de histórias, que se correspondia com o sentimentalismo da classe média.


Você acredita que pensadores e pensamentos são respostas a seus meios e ambientes, a seus universos culturais mais imediatos (cidade, país), ou não são moldados por suas origens? Christian Ferrer só poderia ser argentino, ou poderia ser russo ou brasileiro?
Ferrer: Não, não poderia ser asiático ou brasileiro, somente argentino. As matrizes acadêmicas e culturais que nos anos 90 foram promovidas por políticas associadas à palavra "globalização" (mais uma senha que uma realidade única) tendem a fazer das instituições culturais um fenômeno relativamente uniforme, mas a moldura na qual se forma uma pessoa sempre é própria, quer dizer, nacional.
E a questão da nação, até o momento, tem sido pensada unicamente por nacionalistas, sociólogos e terceiro-mundistas, e tem sido mal pensada também pelos progressistas e globalizadores. Uma nação é uma experiência (e não uma teoria ou programa político), uma experiência que se ama, até mesmo quando não se pode admirá-la.


Em “Mistério e Hierarquia”, você escreve que "a política é uma dádiva da imaginação humana". Que políticas você imagina para a Argentina neste século que principia?
Ferrer: Gostaria de imaginar um país que não se deprecie na época das vacas magras e que não se torne arrogante na época das vacas gordas. No momento, Argentina é o nome de uma insatisfação coletiva, de um lamento, de um "mal de tango".

"A arte de viver contra a dominação", na qual se desenvolveu o anarquismo, está realmente suspensa, como você diz? Em “Mistério e hierarquia”, você escreve que o anarquismo "precisa hoje de um mito da liberdade que seja ‘revelador’ do mal-estar social e que dê à boa parte da população um impulso de rejeição". Mas o mal-estar não tem sido cada vez mais medicalizado e neutralizado pelas tecnologias de amortecimento subjetivo que se popularizam?
Ferrer: Superar a dominação foi uma aspiração moderna, a expectativa e demanda de uma redenção para o castigo da fome e da autocracia. Nesse contexto, os sintomas sociais que evidenciavam o mal-estar humano diante dos poderes pretendiam ser "curados", e boa parte do pensamento, da inovação científica e da ação política se converteram em instrumentos de transformação social e em bolas de cristal na qual se evidenciava um éden futuro.
Mas, hoje em dia, muitos dos sintomas do mal-estar existencial que em outra época teriam conduzido ao protesto ou à derrocada pessoal são hoje acoplados às diversas panacéias técnicas e às diversas indústrias do corpo. Em uma pílula, em uma cirurgia, em uma dieta, em exercício físico, em uma farmacopéia, o sintoma que antes exigia ser curado recebe agora uma transfusão de gozo.


No que consiste o sofrimento contemporâneo?
Ferrer: Consiste em uma experiência sem sentido, pois uma vez que o cristianismo já não é capaz de apaziguar a imensa dor humana (quando seus Cristos crucificados, suas virgens padecidas e seus santos martirizados já não constituem o espelho do corpo torturado) e quando as promessas políticas modernas já não são capazes de estimular as massas em direção ao futuro, a condição sofredora da humanidade cai aprisionada em um paradoxo: exige salvação para o sofrimento, mas carece de apaziguadores transcendentes, seja a teologia ou a política.
É então quando os confortos técnicos e os "amortecedores" farmacêuticos se ocupam de fazer suturas nos abismos existenciais de um presente contínuo, no qual sofrer, envelhecer e morrer carecem de sentido.


Slavoj Zizek nos diz que a tolerância liberal retira do outro toda a sua diversidade, assim como retira da vida sua substância nociva, perigosa, esvaziando da realidade seu conflito. Você concorda?
Ferrer: A forma moderna de pensar por antecipação os conflitos supõe impôr-lhes um ideal de "diálogo", ao qual as partes divergentes deveriam aspirar. Quer dizer, antes do conflito em si mesmo a lei se ocupa de repartir as posições em disputa, a fim de deixar claro "lados" e possibilidades de "conciliação". É o ideal da comunicação moderna, a humanização do "conflito social", que no momento vem a ser insignificante.
Do mesmo modo, se espera que as sociedades liberais contemplem e contenham todas as diferenças e aspirações de minorias (pobres, ricos, baleias, baleeiros, kosovares, sérvios, mulheres, homens, gays, lésbicas, travestis, sem-terra, com-terra, comunistas, liberais, imigrantes e nativos, e assim sucessivamente). Mas talvez a tolerância e o reconhecimento dos direitos do outro para que este viva sua vida pressuponham um tabuleiro social no qual as casas seriam fixas e as identidades definidas.
No entanto, nunca estivemos mais alijados do "outro" que quando reconhecemos nossa distância identitária em relação a ele. Talvez devêssemos começar por questionar que atributos do outro habitam em nós, quais desses atributos são necessários para nossa vida, e quais não. Desapareceria assim a compulsão pela identificação de pessoas por categorias, atitude que sempre foi praticada pela polícia.


A pornografia seria justamente uma demanda de neutralização da vida? O gênero contemporâneo por excelência?
Ferrer: O crescimento da indústria pornográfica, com a velocidade de uma tempestade de neve, pode ser interpretado como um efeito invertido das demandas libertárias dos anos 60, quer dizer, da época da "revolução sexual", na qual as demandas do "direito natural ao prazer" emergiram da discussão pública e foram postas em experimentação.
Dali em diante, os fluxos de capitais se encontraram com os fluidos libidinais, e tanto a indústria da cirurgia estética quanto a pornográfica produziram seus frutos nesse cruzamento. Mas não se trata de "neutralização" da vida, mas sim de sua intensificação no mundo ordenado pelo capitalismo e pelo patriarcado.
Não é simples recusar estas indústrias em nome da moral, pois a pornografia não é somente um gênero sintomático da atualidade, mas também o prisma em que o prazer (ainda que tendo em conta sua orientação masculina) se refrata. Não fomos educados para o prazer, e muitas vezes este mesmo se reflete unicamente em galerias de espelhos deformantes.


A era do “management”, cujo ideário prega que o indivíduo deve ser, agora, auto-gestor, empresário-de-si-mesmo, e que deve dar conta, por si só, de todos os problemas de modo jovial, dócil, alegre e, sobretudo, "criativo", também compartilharia uma prerrogativa pornográfica?
Ferrer: Uma vez que nem a religião nem a política podem conceder orientações nítidas para a vida, então a responsabilidade por gerir uma "existência satisfeita" é responsabilidade de cada pessoa, individualmente. E tanto a psicanálise quanto os medicamentos antidepressivos, o implante de silicone ou a pornografia se tornam uma logística possível e necessária no mercado da subjetividade.

Como se desenrolaram as tecnologias no século XX e quais são as relações entre os avanços da técnica e o desenvolvimento de uma reflexão ética?
Ferrer: Recorrendo a uma velha idéia trotskista, caberia dizer que o mundo experimenta um desenvolvimento desigual e combinado das relações entre ética e técnica. No século XIX, a política, a religião e a estética eram um referencial e concediam orientação à tecnologia, pois suas inovações e seus desenvolvimentos eram mais velozes que os produzidos pela ciência e pela técnica. No século XX, esta equação se inverteu, e hoje tecnociência se auto-legitima.

Em “La curva pornografica – el sufrimeinto sin sentido y las tecnologias”, você nos convoca a uma “mirada moral”. E eu devolvo a você a pergunta que está na última frase de seu ensaio: "A que chamamos dignidade do corpo"?
Ferrer: O corpo só pretende não sofrer e ser aceito: uma condição a qual também aspira o resto do reino animal.
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Ilana Feldman
É formada em cinema pela Universidade Federal Fluminense, onde faz mestrado. Dirigiu o documentário em média-metragem "Se tu Fores", que ganhou o Prêmio Itaú Cultural para Novos Realizadores.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

3 - FREDERICO GARCÍA LORCA em TEORIA E PRÁTICA DO DUENDE - Série Grande Literatura .Curtas


Teoria e prática do duende
García Lorca

Desde o ano de 1918, quando ingressei na Casa de Estudantes de Madri, até 1928, quando a abandonei, ao terminar meus estudos de Filosofia e Letras, ouvi naquele refinado salão, para onde acorria a velha aristocracia espanhola com o fim de corrigir sua frivolidade de praia francesa, cerca de mil conferências.
No desejo de ar e de sol, me aborreci tanto que, ao sair, me sentia coberto por uma leve cinza, quase a ponto de se transformar em pó-de-mico.

Não. Eu não gostaria que entrasse na sala essa terrível mosca do aborrecimento que costura todas as cabeças com um fio tênue de sono e põe nos olhos dos ouvintes pequenos tufos de pontas de alfinete.

De um modo simples, com o registro que em minha voz poética não tem luzes de madeiras, nem curvas de cicuta, nem ovelhas que subitamente são facas de ironias, vou procurar dar-lhes uma simples lição sobre o espírito oculto da dolorida Espanha.

Quem encontra-se na pele de touro que se estende entre os Júcar, Guadalete, Sil ou Pisuerga (não quero citar as torrentes junto às ondas cor de juba de leão que agitam o Plata), ouve-se dizer com certa freqüência: "Este tem muito duende". Manuel Torres, grande artista do povo andaluz, dizia a alguém que cantava: "Tu tens voz, conheces os estilos, mas jamais triunfarás, porque tu não tens duende".

Em toda Andaluzia, rocha de Jaén e búzio de Cádiz, as pessoas falam constantemente do duende e o descobrem naquilo que sai com instinto eficaz. O maravilhoso cantador El Lebrijano, criador da Debla, dizia: "Nos dias em que canto com duende não há quem possa comigo"; a velha bailarina cigana La Malena exclamou um dia, ao ouvir Brailowsky tocar um fragmento de Bach: "Olé! Isso tem duende!", e aborreceu-se com Glück, com Brahms e com Darius Milhaud. E Manuel Torres, o homem com maior cultura no sangue que conheci, disse, escutando o próprio Falla tocar seu Nocturno del Generalife, esta esplêndida frase: "Tudo o que tem sons negros tem duende". E não há nada mais verdadeiro.

Esses sons negros são o mistério, as raízes que penetram no limo que todos conhecemos, que todos ignoramos, mas de onde nos chega o que é substancial em arte. Sons negros, disse o homem popular da Espanha, e coincidiu com Goethe, que define o duende ao falar de Paganini, dizendo: "Poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica".

Assim pois o duende é um poder e não um obrar, é um lutar e não um pensar. Eu ouvi um velho violonista dizer: "O duende não está na garganta; o duende sobe por dentro a partir da planta dos pés". Ou seja, não é uma questão de faculdade, mas de verdadeiro estilo vivo; ou seja, de sangue; ou seja, de velhíssima cultura, de criação em ato.

Esse "poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica" é, em suma, o espírito da terra, o mesmo duende que abraçou o coração de Nietzsche, que o buscava em suas formas exteriores sobre a ponte Rialto ou na música de Bizet, sem encontrá-lo e sem saber que o duende que perseguia tinha saltado dos misteriosos gregos às bailarinas de Cádiz ou ao dionisíaco grito degolado da seguiriya de Silvério.

Assim, pois, não quero que ninguém confunda o duende com o demônio teológico da dúvida, ao qual Lutero, com um sentimento báquico, lançou um frasco de tinta em Nuremberg, nem com o diabo católico, destruidor e pouco inteligente, que se disfarça de cadela para entrar nos conventos, nem com o macaco falante que tem o espertalhão de Cervantes, na comédia dos ciúmes e das selvas de Andaluzia.

Não. O duende de que falo, obscuro e estremecido, é descendente daquele alegríssimo demônio de Sócrates, mármore e sal que o arranhou indignado no dia em que tomou a cicuta, e do outro melancólico demoniozinho de Descartes, pequeno como amêndoa verde, que, farto de círculos e de linhas, saiu pelos canais para ouvir cantarem os marinheiros bêbados.

Todo homem, todo artista, dirá Nietzsche, cada degrau que sobe na torre de sua perfeição é às custas da luta que trava com um duende, não com um anjo, como se diz, nem com sua musa. É preciso fazer essa distinção fundamental para a raiz da obra.

O anjo guia e presenteia como São Rafael, defende e evita como São Miguel, e previne como São Gabriel.

O anjo deslumbra, mas voa sobre a cabeça do homem, está acima, derrama sua graça, e o homem, sem nenhum esforço, realiza sua obra, ou sua simpatia, ou sua dança. O anjo do caminho de Damasco ou o que entrou pelas fendas do balcãozinho de Assis, ou o que segue os passos de Enrique Susson, ordena, e não há maneira de recusar suas luzes, porque agita suas asas de aço no ambiente do predestinado.

A musa dita, e, em algumas ocasiões, sopra. Pode relativamente pouco, porque já está distante e tão cansada (eu a vi duas vezes) que teve que colocar meio coração de mármore. Os poetas de musa ouvem vozes e não sabem de onde elas vêm; são da musa que os alenta e às vezes os merenda. Como no caso de Apollinaire, grande poeta destruído pela horrível musa que foi pintada a seu lado pelo divino angélico Rousseau. A musa desperta a inteligência, traz paisagem de colunas e falso sabor de lauréis, e a inteligência é muitas vezes a inimiga da poesia, porque imita demasiadamente, porque eleva o poeta a um trono de agudas arestas e o faz esquecer que logo podem comê-lo as formigas ou pode cair-lhe na cabeça uma grande lagosta de arsênico, contra a qual nada podem as musas que há nos monóculos ou na rosa de tíbia laca do pequeno salão.

Anjo e musa vêm de fora; o anjo dá luzes e a musa dá formas (Hesíodo aprendeu com elas). Pão de ouro ou prega de túnicas, o poeta recebe normas no bosquezinho de lauréis. Ao contrário, o duende tem que ser despertado nas últimas moradas do sangue.

E rechaçar o anjo e dar um pontapé na musa, e perder o medo da fragrância de violetas que exala a poesia do século XVIII, e do grande telescópio em cujos cristais dorme a musa enferma de limites.

A verdadeira luta é com o duende.

Os caminhos para buscar a Deus são conhecidos, desde o modo bárbaro do eremita até o modo sutil do místico. Com uma torre como Santa Teresa, ou com três caminhos como São João da Cruz. E embora tenhamos que clamar com voz de Isaías: "Verdadeiramente és um Deus escondido", ao fim e ao cabo Deus manda ao que o busca seus primeiros espinhos de fogo.

Para buscar o duende não há mapa nem exercício. Só se sabe que ele queima o sangue como uma beberagem de vidros, que esgota, que rechaça toda a doce geometria aprendida, que rompe os estilos, que faz com que Goya, mestre nos cinzas, nos pratas e nos rosas da melhor pintura inglesa, pinte com os joelhos e com os punhos com horríveis negros de betume; ou que desnuda Mosén Cinto Verdaguer com o frio dos Pirineus, ou leva Jorge Manrique a esperar a morte no páramo de Ocaña, ou veste com uma roupa verde de saltimbanco o corpo delicado de Rimbaud, ou põe olhos de peixe morto no conde Lautréamont na madrugada do boulevard.

Os grandes artistas do sul da Espanha, ciganos ou flamengos, quer cantem, dancem ou toquem, sabem que não é possível nenhuma emoção sem a chegada do duende. Eles enganam as pessoas, e podem dar a sensação de duende sem que ele esteja lá, como as enganam todos os dias autores ou pintores ou modistas literários sem duende; mas basta atentar um pouco, e não se deixar levar pela indiferença, para descobrir o engodo e fazê-lo fugir com o seu tosco artifício.

Uma vez, a "cantadora" andaluza Pastora Pavón, A Menina dos Pentes, sombrio gênio hispânico, equivalente em capacidade de fantasia a Goya ou a Rafael o Galo, cantava em uma pequena taberna de Cádiz. Cantava com sua voz de sombra, com sua voz de estanho fundido, com sua voz coberta de musgo, e a enredava em seus cabelos ou a molhava em camomila ou a perdia entre estevais obscuros e longínquos. Mas nada; era inútil. Os ouvintes permaneciam calados.

Estava ali Ignacio Espeleta, formoso como uma tartaruga romana, a quem perguntaram uma vez: "Como não trabalhas?", e ele, com um sorriso digno de Argantônio, respondeu: "Como vou trabalhar se sou de Cádiz?"

Estava ali Eloísa, a quente aristocrata, rameira de Sevilla, descendente direta de Soledad Vargas, que em trinta não quis casar com um Rothschild porque não a igualava em sangue. Estavam ali os Floridas, que as pessoas crêem carniceiros, mas que na realidade são sacerdotes milenares que continuam sacrificando touros a Gereão, e em um canto, o imponente dono de gado Don Pablo Murube, com ar de máscara cretense. Pastora Pavón terminou de cantar em meio ao silêncio. Só, e com sarcasmo, um homem pequenino, desses homenzinhos bailarinos que saem de súbito das garrafas de aguardente, disse com voz muito baixa: "Viva Paris!", como se dissesse: "Aqui não nos importam as faculdades, nem a técnica, nem a maestria. Nos importa outra coisa."

Então A Menina dos Pentes levantou-se como uma louca, tronchada como uma carpideira medieval, e bebeu de um trago uma grande copo de cazalla como fogo, e sentou-se a cantar sem voz, sem alento, sem matizes, com a garganta abrasada, mas... com duende. Conseguira matar todo a estrutura da canção para dar lugar a um duende furioso e abrasador, amigo de ventos carregados de areia, que fazia com que os ouvintes rasgassem suas roupas quase com o mesmo ritmo com que as rasgam os negros antilhanos do rito, agrupados perante a imagem de Santa Bárbara.

A Menina dos Pentes teve que descarregar sua voz porque sabia que estava sendo escutada por gente estranha que não pedia formas, mas tutano de formas, música pura com o corpo exíguo para poder manter-se no ar. Teve que empobrecer em faculdades e em seguranças; quer dizer, teve que afastar a musa e ficar desamparada, para que seu duende viesse e se dignasse a lutar com os braços nus. E como cantou! Sua voz já não cantava, sua voz era um jorro de sangue dignificado por sua dor e por sua sinceridade, e se abria como uma mão de dez dedos pelos pés cravados, mas cheios de borrasca, de um Cristo de Juan de Juní.

A chegada do duende pressupõe sempre uma transformação radical em todas as formas sobre velhos planos, dá sensações de frescor totalmente inéditas, com uma qualidade de rosa recém criada, de milagre, que chega a produzir um entusiasmo quase religioso.

Em toda música árabe, dança, canção ou elegia, a chegada do duende é saudada com enérgicos "Alá, Alá!", "Deus, Deus!", tão próximos do "Olé!" dos touros que talvez seja o mesmo; e em todos os cantos do sul da Espanha a aparição do duende é seguida por sinceros gritos de "Viva Deus!", profundo, humano, terno grito de uma comunicação com Deus por meio dos cinco sentidos, graças ao duende que agita a voz e o corpo da bailarina, evasão real e poética deste mundo, tão pura como a conseguida pelo raríssimo poeta do século XVIII Pedro Soto de Rojas através de sete jardins, ou a de João Clímaco por uma estremecido acesso de pranto.

Naturalmente, quando essa evasão é alcançada todos sentem seus efeitos: o iniciado, vendo como o estilo vence uma matéria pobre, e o ignorante, no não sei quê de uma emoção autêntica. Há anos, em um concurso de baile de Jerez de la Frontera, quem ganhou o prêmio foi uma velha de oitenta anos, contra formosas mulheres e meninas com a cintura de água, pelo simples fato de levantar os braços, erguer a cabeça e dar um golpe com o pé sobre o tablado; mas na reunião de musas e de anjos que havia ali, belezas de forma e belezas de sorriso, tinha que ganhar e ganhou aquele duende moribundo que arrastava pelo chão suas asas de facas oxidadas.

Todas as artes são capazes de duende, mas onde ele encontra maior campo, como é natural, é na música, na dança e na poesia falada, já que elas necessitam de um corpo vivo que interprete, porque são formas que nascem e morrem de modo perpétuo e alçam seus contornos sobre um presente exato.

Muitas vezes o duende do músico passa para o duende do intérprete, e outras vezes, quando o músico ou o poeta não são tais, o duende do intérprete, e isto é interessante, cria uma nova maravilha que tem na aparência, e nada mais, a forma primitiva. Este é o caso da enduendada Eleonora Duse, que buscava obras fracassadas para fazê-las triunfar, graças ao que ela inventava, ou o caso de Paganini, descrito por Goethe, que fazia com que se ouvisse melodias profundas em verdadeiras vulgaridades, ou o caso de uma deliciosa garota do Porto de Santa Maria, que vi cantar e dançar a horrorosa canção italiana O Mari!, com uns ritmos, uns silêncios e uma intenção que faziam da bugiganga italiana uma dura serpente de ouro puro. O que acontece é que eles encontravam efetivamente alguma coisa nova, que não tinha nada a ver com a anterior, que punham sangue vivo e ciência em corpos vazios de expressão.

Todas as artes, e também os países, têm capacidade de duende, de anjo e de musa; e assim como a Alemanha tem, com exceções, musa, e a Itália tem permanentemente anjo, a Espanha é em todos os tempos movida pelo duende, como país de música e dança milenares, onde o duende espreme limões de madrugada, e como país de morte, como país aberto à morte.

Em todos os países a morte é um fim. Ela chega e fecham-se as cortinas. Na Espanha, não. Na Espanha elas são abertas. Muita gente vive ali entre suas paredes até o dia em que morre e é colocada ao sol. Um morto na Espanha está mais vivo como morto que em qualquer lugar do mundo: fere seu perfil como um fio de uma navalha bárbara. O chiste sobre a morte e sua contemplação silenciosa são familiares aos espanhóis. Desde O sonho das caveiras, de Quevedo, até o Bispo apodrecido, de Valdés Leal, e desde a Marbella do século XVII, morta de parto na metade do caminho, que diz:

La sangre de mis entrañas
cubriendo el caballo está.
Las patas de tu caballo
echan fuego de alquitrán... (1)

ao jovem moço de Salamanca, morto pelo touro, que clama

Amigos, que yo me muero;
amigos, yo estoy muy malo.
Tres pañuelos tengo dentro
y este que meto son cuatro... (2)

há uma balaustrada de flores de salitre, de onde assoma um povo de contempladores da morte, com versículos de Jeremias em seu lado mais áspero, ou com cipreste fragrante pelo lado mais lírico; mas um país onde o mais importante de tudo tem um último valor metálico de morte.

A faca e a roda do carro, e a navalha e as barbas pontudas dos pastores, e a lua despida, e a mosca, e as despensas úmidas, e os destroços, e os santos cobertos de renda, e a cal, e a linha cortante dos alpendres e dos mirantes têm na Espanha diminutas ervas de morte, alusões e vozes perceptíveis para um espírito alerta, que nos traz à memória o ar rígido de nosso próprio trânsito. Não é casualidade toda a arte espanhola ligada à nossa terra, cheia de cardos e de pedras definitivas, não é um exemplo isolado a lamentação de Pleberio ou as danças do maestro Josef María de Valdivielso, não é um acaso que de toda balada européia se destaque esta amada espanhola:

- Si tu eres mi linda amiga,
cómo no me miras, di?
- Ojos con que te miraba
a la sombra se los di.
- Si tú eres mi linda amiga,
cómo no me besas, di?
- Labios com que te besaba
a la tierra se los di.
- Si tú eres mi linda amiga,
cómo no me abrazas, di?
- Brazos com que te abrazaba,
de gusanos los cubrí. (3)

Nem é estranho que nos alvoreceres de nossa lírica soe esta canção:

Dentro del vergel
moriré,
dentro del rosal
matar me han.
Yo me hiba, mi madre,
las rosas coger,
hallara la muerte
dentro del vergel.
Yo me hiba, madre,
las rosas cortar,
hallara la muerte
dentro del rosal.
Dentro del vergel,
moriré,
dentro del rosal
matar me han. (4)

As cabeças geladas pela lua que Zurbarán pintou, o amarelo manteiga com o amarelo relâmpago de El Greco, o relato do padre Sigüenza, a obra inteira de Goya, a abside da igreja de El Escorial, toda a escultura policromada, a cripta dos Benavente em Medina de Rioseco, equivalem no culto às romarias de San Andrés de Teixido, onde os mortos tomam lugar na procissão, aos cantos fúnebres que cantam as mulheres de Astúrias com lanternas cheias de chamas na noite de novembro, ao canto e à dança da Sibila nas catedrais de Mallorca e Toledo, ao obscuro In Recort tortosino e aos inumeráveis ritos da Sexta-Feira Santa, que com a cultíssima festa dos touros formam o triunfo popular da morte espanhola. No mundo, somente o México pode ombrear com meu país.

Quando a musa vê a morte chegar fecha a porta ou ergue um plinto ou passeia uma urna e escreve um epitáfio com mão de cera, mas em seguida começa a rasgar seu laurel com um silêncio que vacila entre duas brisas. Sob o arco truncado da ode, ela junto com sentido fúnebre as flores exatas que pintaram os italianos do século XV e chama o seguro galo de Lucrécio para que espante sombras imprevistas.

Quando vê chegar a morte, o anjo voa em círculos lentos e tece com lágrimas de gelo e narciso a elegia que vimos tremer nas mãos de Keats, e nas de Villasandino, e nas de Herrera, e nas de Bécquer e nas de Juan Ramón Jiménez. Mas que horror o do anjo ao sentir uma aranha, por menor que ela seja, sobre seu terno pé rosado!

Ao contrário, o duende não chega se não vê possibilidade de morte, se não sabe que ela há de rondar sua casa, se não tem segurança de que há de balançar esses ramos que todos carregamos e que não têm, que não terão consolo.

Com idéia, com som ou com gesto, o duende gosta das bordas do poço em franca luta com o criador. Anjo e musa escapam com violino ou compasso, e o duende fere, e na cura dessa ferida, que não se fecha nunca, está o insólito, o inventado da obra de um homem.

A virtude mágica do poema consiste em estar sempre enduendado para batizar com água obscura a todos os que o vêem, porque com duende é mais fácil amar, compreender, e é certeza ser amado, ser compreendido, e essa luta pela expressão e pela comunicação da expressão adquire às vezes, em poesia, caracteres mortais.

Recordai o caso da flamenguíssima e enduendada Santa Teresa, flamenga não por dominar um touro furioso e dar-lhe três passes magníficos; não por enfrentar frei Juan de la Miseria nem por dar uma bofetada no Núncio de Sua Santidade, mas por ser uma das poucas criaturas cujo duende (não anjo, porque o anjo não ataca nunca) a transpassa com um dardo, querendo matá-la por ter roubado seu último segredo, a ponte sutil que une os cinco sentidos com esse centro em carne viva, em nuvem viva, em mar vivo, do Amor libertado do Tempo.

Valentíssima vencedora do duende, e um caso oposto ao de Felipe da áustria, que, ansiando buscar musa e anjo na teologia, viu-se aprisionado pelo duende dos ardores frios nessa obra de El Escorial, onde a geometria ombreia com o sonho e onde o duende põe máscara de musa para eterno castigo do grande rei.


Dissemos que o duende ama a orla, o limite, a ferida, e se aproxima dos lugares onde as formas se fundem em um anelo superior a suas expressões visíveis.

Na Espanha (como nos povos do Oriente, onde a dança é expressão religiosa) o duende tem um campo sem limites nos corpos das bailarinas de Cádiz, elogiadas por Marçal, nos peitos dos que cantam, elogiados por Juvenal, e em toda a liturgia dos touros, autêntico drama religioso onde, da mesma maneira que na missa, se adora e se sacrifica a um Deus.

É como se todos os duendes do mundo clássico se juntassem nessa festa perfeita, expoente da cultura e da grande sensibilidade de um povo que descobre no homem suas melhores iras, suas melhores bílis e seu melhor pranto. Nem no baile espanhol nem nos touros alguém se diverte; o duende se encarrega de fazer sofrer através do drama, em formas vivas, e prepara as escadas para uma evasão da realidade que circunda.

O duende opera sobre o corpo da bailarina como o vento sobre a areia. Transforma com mágico poder uma garota em paralítica da lua, ou enche de rubores adolescentes um velho roto que pede esmola pelas tendas de vinho, dá aos cabelos um cheiro de porto noturno, e em todo momento opera sobre os braços com expressões que são mães da dança de todos os tempos.

E é impossível que ele se repita, isso é muito interessante de sublinhar. O duende não se repete, como não se repetem as formas do mar na tempestade.


Nos touros ele adquire seus acentos mais impressionantes, porque tem que lutar, por um lado, com a morte, que pode destruí-lo, e por outro lado com a medida, base fundamental da festa.

O touro tem sua órbita: o toureiro, a sua, e entre órbita e órbita um ponto de perigo onde está o vértice do terrível jogo.

Pode-se ter musa com muleta e anjo com bandeirinhas e passar por bom toureiro, mas na faina de capa, com o touro limpo ainda de feridas, e no momento de matar, necessita-se da ajuda do duende para acertar no cravo da verdade artística.

O toureiro que assusta o público na praça por sua temeridade não toureia, mas encontra-se neste plano ridículo, ao alcance de qualquer homem, de jogar com a vida; ao contrário, o toureiro mordido pelo duende dá uma lição de música pitagórica e faz esquecer que arrisca constantemente o coração sobre os cornos.

Lagartijo com seu duende romano, Joselito com seu duende judeu, Belmonte com seu duende barroco e Cagancho com seu duende cigano, ensinam, desde o crepúsculo do anel, a poetas, pintores e músicos, quatro grandes caminhos da tradição espanhola.

A Espanha é o único país onde a morte é o espetáculo nacional, onde a morte toca longos clarins à chegada das primaveras, e sua arte está sempre regida por um duende agudo que lhe dá sua diferença e sua qualidade de invenção.

O duende que enche de sangue, pela primeira vez na escultura, as faces dos santos do mestre Mateo de Compostela, é o mesmo que faz São João da Cruz gemer ou queima ninfas nuas com os sonetos religiosos de Lope.

O duende que levanta a torre de Sahagún ou trabalha ladrilhos quentes em Calatayud ou Teruel é o mesmo que rasga as nuvens de El Greco e põe a rodar a pontapés os aguazis de Quevedo e as quimeras de Goya.

Quando chove faz surgir Velázquez enduendado, em segredo, por trás de seus cinzas monárquicos; quando neva faz Herrera sair nu para demonstrar que o frio não mata; quando arde, põe em suas chamas Berruguete e o faz inventar um novo espaço para a escultura.

A musa de Góngora e o anjo de Garcilaso hão de soltar a guirlanda de laurel quando passa o duende de São João da Cruz, quando

el ciervo vulnerado
por el otero asoma. (5)

A musa de Gonzalo de Berceo e o anjo do Arcipreste de Hita devem separar-se para dar lugar a Jorge Manrique, quando chega ferido de morte às portas do castelo de Belmonte. A musa de Gregoria Hernández e o anjo de José de Mora devem separar-se para que cruze o duende que chora lágrimas de sangue de Mena e o duende com cabeça de touro de Martínez Montañes, como a melancólica musa da Cataluña e o anjo molhado de Galicia olham, com amoroso assombro, o duende de Castilla, tão distante do pão quente e da dulcíssima vaca que pasta com normas de céu varrido e terra seca.

Duende de Quevedo e duende de Cervantes, com verdes anêmonas de fósforo um, e flores de gesso de Ruidera o outro, coroam o retábulo do duende da Espanha.

Cada arte tem, como é natural, um duende de modo e forma distintos, mas todas unem suas raízes em um ponto de onde manam os sons negros de Manuel Torres, matéria última e fundo comum incontrolável e estremecido de lenho, som, tela e vocábulo.

Sons negros por trás dos quais estão já em terna intimidade os vulcões, as formigas, os zéfiros e a grande noite apertando a cintura com a Via Láctea.


Senhoras e senhores; ergui três arcos e com mão torpe coloquei neles a musa, o anjo e o duende.

A musa permanece quieta; pode ter a túnica de pequenas pregas ou os olhos de vaca que miram em Pompéia o narizinho de quatro caras com que seu grande amigo Picasso a pintou. O anjo pode agitar cabelos de Antonello de Mesina, túnica de Lippi e violino de Massolino ou de Rousseau.

O duende... Onde está o duende? Pelo arco vazio entra um ar mental que sopra com insistências sobre as cabeças dos mortos, em busca de novas paisagens e acentos ignorados; um ar com cheiro de saliva de menino, de erva pisada e véu de medusa que anuncia o constante batismo das coisas recém criadas.

Notas

(1) O sangue de minhas entranhas
cobrindo o cavalo está.
As patas de teu cavalo
deitam fogo de alcatrão...

(2) Amigos, estou morrendo;
amigos, estou muito mal.
Tenho três lenços dentro
e com este que ponho são quatro...

(3) - Se tu és minha linda amiga,
como não me olhas, diz?
- Olhos com que te olhava
à sombra eu os dei
- Se tu és minha linda amiga,
como não me beijas, diz?
- Lábios com que te beijava
à terra eu os dei.
- Se tu és minha linda amiga,
como não me abraças, diz?
- Braços com que te abraçava,
de vermes eu os cobri.

(4) Dentro do vergel
morrerei,
dentro do roseiral
me hão de matar.
Eu ia, minha mãe,
As rosas colher,
Encontrei a morte
Dentro do vergel.
Eu ia, minha mãe,
As rosas cortar,
Encontrei a morte
Dentro do roseiral.
Dentro do vergel
morrerei,
dentro do roseiral
me hão de matar.

(5) o cervo ferido
pelo outeiro assoma.



Federico García Lorca. Obras Completas. Ed. Aguillar.
Colaboração da Insurreta Marília Toro.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

3 - OCUPAÇÕES URBANAS - PRÁTICA DO ANARQUISMO SOCIAL NO RIO DE JANEIRO- Série Anarquiação!



Ocupações Urbanas – A prática do anarquismo social no Rio de Janeiro
Por Felipe Corrêa, publicado originalmente no Protesta! XV/2005

Acreditamos que a maioria dos males que afligem os homens decorre da má organização social; e que os homens, por sua vontade e seu saber, podem fazê-los desaparecer. Errico Malatesta

Vontade; o elemento-chave colocado por Malatesta para impulsionar as mudanças sociais. Talvez seja essa a palavra que melhor representa o trabalho dos companheiros anarquistas do Rio de Janeiro. Em uma breve análise da recente movimentação libertária na cidade, podemos citar a fundação da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) como um marco. Seu processo de formação iniciou-se a partir de um grupo de discussões sobre as formas de organização do anarquismo e durou em torno de um ano e meio. Com o término das atividades do grupo de discussão, houve o consenso sobre a fundação de uma organização do tipo especifista (uma federação de individualidades anarquistas que constroem, no seio da organização, suas distintas frentes de atuação social). Desde sua fundação, que veio concretizar-se em 30/08/2003, a FARJ vem trabalhando em inúmeros projetos, cujo principal objetivo é colocar as idéias anarquistas em prática. Como diz seu próprio Manifesto de Fundação, “a sociedade do futuro nascerá de nossa capacidade de realizar, a partir de agora, cotidianamente, as generosas aspirações que o anarquismo, ao longo de várias gerações de luta e esforço militante, legou à humanidade”.

Dentre os inúmeros projetos desenvolvidos pela FARJ, está o Centro de Cultura Social (CCS), localizado na zona norte da cidade, que serve de espaço para o trabalho comunitário, recebendo assembléias de muitos tipos, produção autogerida de bolinhos juntamente com membros da comunidade do Morro dos Macacos, reforço escolar, reciclagem, prática de capoeira - ensinada como autodefesa e cultura de resistência - e ainda abriga a Biblioteca Social Fábio Luz desde 2001. O CCS funciona como um espaço de militância ampliado, é uma frente de trabalho da FARJ, dentro da qual colaboram outros grupos como o Coletivo Libertário Ativista Voluntariado de Estudos (CLAVE) e o Grupo de Ação Libertária (GAL). Além destes grupos marcadamente anarquistas, ainda estão no CCS outros organismos de atuação social com os quais a FARJ tem afinidades táticas e concorda em alguns pontos específicos no que, grosso modo, poder-se-ia considerar estratégico. Entre esses estão o Comitê Contra a Tortura e a Prisão Política no Brasil e outros com formação ideológica eclética.

Com o objetivo de aumentar seu campo de ação a FARJ envolveu-se aos fins de 2003 no trabalho com as ocupações urbanas cariocas. Neste momento, alguns militantes da FARJ passaram a freqüentar as assembléias das ocupações Olga Benário, em Campo Grande, e Vila da Conquista e Nelson Faria Marinho, em Jacarepaguá. Os trabalhos desenvolvidos, de cunho essencialmente político, têm como objetivo organizar os moradores e o apoio às demandas entendidas por eles como prioritárias. Assim que possível, estreitaram os laços destas comunidades com os organismos de classe mais avançados. Alguns sindicatos chegaram mesmo a viabilizar, de forma inequivocamente solidária, obras de infraestrutura, abrindo linhas de fomento que continuam ainda hoje. Posteriormente, os trabalhos da FARJ ampliaram-se em outras ocupações como a Poeta Xynaiba, na Tijuca, e Margarida Maria Alves, em São Gonçalo. Em todas estas ocupações a FARJ busca estimular a organização autônoma, o desenvolvimento da solidariedade entre elas, além de insistir na adoção do método federalista para a organização de uma aliança política entre todas as referidas comunidades.

Uma conquista importante das comunidades, e que contou com o apoio dos anarquistas, foi a condenação do estatuto jurídico da propriedade privada, praticamente banido de todas as referidas ocupações. Além da correspondente adoção do trabalho sob forma de mutirão, os moradores hoje, na sua quase totalidade, rejeitam a democracia representativa como via para resolver seus problemas. Os políticos profissionais não são admitidos nas assembléias decisórias e a propaganda eleitoral está proscrita. Portanto, é na ação direta, e na aliança com as outras organizações de trabalhadores, que os moradores confiam para resolver seus problemas. Já há alguns meses, o trabalho anarquista com as ocupações urbanas conta com a participação dos grupos CLAVE e GAL que desenvolvem um belo trabalho pedagógico, intervenções lúdicas com o público infanto-juvenil e participação nas assembléias. Fundamentalmente, o que motiva a ação destes grupos é a crença que o anarquismo deve retomar sua trajetória classista, desenvolvendo trabalhos de relevância aos ocupantes.

O anarquismo social, muito diferente deste anarquismo de comportamento ou de estilo de vida que estamos acostumados a ver, preconiza um retorno organizado às lutas populares, estimulando a presença anarquista junto aos oprimidos, na busca pela emancipação econômica e pela liberdade. O anarquismo social, neste sentido, não deve ser entendido como algo novo, inovador. Apesar de o anarquismo ter perdido, com o tempo, este viés social, este anarquismo busca o retorno dos anarquistas a uma atuação social mais profunda e comprometida junto aos trabalhadores e, principalmente, aos marginalizados da sociedade, como os sem-teto, os sem-terra, os indígenas, etc. É na atuação social que as contradições do capitalismo são mais explícitas. Dessa forma, na própria ação concreta e cotidiana do militante, ele poderá desenvolver o senso crítico e associar o acumulo teórico que apreendeu em suas leituras às necessidades contemporâneas de transformação. Uma vez que entendemos o anarquismo como algo vivo e vivido não é possível ser libertário sem, de posse dos meios necessários e trabalhos concretos, definir posições e implementar políticas claras para o combate ao capitalismo. Outra atividade muito interessante desenvolvida pelos companheiros cariocas é uma espécie de projeto de “gestação” das ocupações urbanas que acontece periodicamente no CCS e cujo objetivo é organizar em suas dependências, populares que, uma vez sem possibilidades de arcar com as despesas de aluguel, necessitam de moradia e que estão dispostos a ocupar. Assim, oferecem espaço para o encontro dessas pessoas, para que se conheçam e comecem a atuar de forma horizontal, sentindo os primeiros efeitos da autogestão. Participam de assembléias que decidem, desde o nome das futuras ocupações, até suas comissões e divisões de tarefas. Além disso, estimula-se a ação direta para a conquista de sua moradia, o que não deixa de ser um maravilhoso elemento pedagógico que modifica as consciências, mostrando que não devemos depender de um partido ou de um governo para a resolução de nossos próprios problemas.

Os companheiros do Rio de Janeiro estão, de fato, preparando os espíritos para a luta anticapitalista e auxiliando, como minoria ativa que são, os trabalhadores a se organizarem contra os que os oprimem e, não menos importante, atacando o sistema no que ele possui de mais estratégico que é a propriedade privada. Entretanto, há uma constante busca para que o trabalho não se restrinja a ocupações isoladas. É necessário que esse fenômeno se espalhe em progressão geométrica, e, uma vez crescendo, que estejamos nós libertários presentes no processo, para garantir nele a permanência do que de melhor contribuímos para a sua formação. Uma organização federada local deve apontar para uma regional e, em um futuro breve, com o auxilio de outros companheiros, uma que se articule no território nacional. Talvez seja esse o grande desafio que, no Rio de Janeiro, os companheiros tentam desenvolver com cuidado, humildade, mas com muita firmeza.

A FARJ não se quer uma organização exportadora modelos. Entretanto ela claramente sugere que os companheiros anarquistas retomem as iniciativas de trabalho social que tantos episódios nos fizeram protagonizar na História. E que, se de certa forma, o anarquismo se constituiu como teoria revolucionária é por ter rejeitado o papel de filosofia da História. Optou pela transformação e não pela gestão ou interpretação dos fatos por aqueles que mais observam que fazem. O anarquismo que nasceu do povo, só pode sobreviver dentro dele, não como uma testemunha isenta dos feitos humanos, mas se humanizando nos seus próprios feitos. Esse importante trabalho que está sendo realizado no Rio de Janeiro deve servir de exemplo a todos aqueles que querem trabalhar pelo socialismo. É, sem dúvida, um raro exemplo da vontade e do saber, outrora ressaltados por Malatesta.

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