Mostrando postagens com marcador Série Obras Completas em Capítulos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Série Obras Completas em Capítulos. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

PUBLICIDADE


(capítulo 13-Capítulo final)


O QUE ISSO DIZ A VOCÊ não é prosa. Pode ser pendurado no quadro de avisos, mas ainda está vivo & retorcendo-se. Não pretende seduzi-lo, a não ser que você seja de extrema juventude & beleza (anexe uma foto recente).

Hakim Bey mora num decadente hotel chinês onde os proprietários balançam a cabeça de um lado para o outro enquanto lêem os jornais & escutam transmissões estridentes da Ópera de Pequim. O ventilador de teto gira como um dervixe indolente – suor pinga sobre a página – o cafetã do poeta está encardido, seus cinzeiros derramam cinzas no tapete – seus monólogos parecem desconexos & levemente sinistros – por trás das janelas fechadas, o gueto desaparece entre palmeiras, o ingênuo oceano azul, a filosofia do tropicalismo.

Numa estrada em algum lugar a leste de Baltimore, você passa por um trailer Airstream, & enxerga uma grande placa plantada na grama: LEITURAS ESPIRITUAIS, com a imagem de uma rude mão negra sobre um fundo vermelho. Lá dentro, você encontra livros sobre sonhos & numerologia, panfletos sobre vodu & macumba, revistas de nudismo velhas & empoeiradas, um pilha de Boy´s Life, tratados sobre briga de galos... & este livro, Caos. Como palavras ditas num sonho, portentosas, evanescentes, transformando-se em perfumes, pássaros, cores, música esquecida.

Este livro se mantém a distância por uma certa impassibilidade em sua superfície, quase que visível através de um vidro. Ele não abana o rabo & não grunhe, mas morde & estraga a mobília. Ele não tem um número ISBN & não o quer como discípulo, mas pode seqüestrar seus filhos.

Este livro é nervoso como o café ou a malária – ele cria, entre si & seus leitores, uma rede de desertores & outsiders -mas é tão cara-de-pau & literal que praticamente se codifica – fuma a si próprio em estupor.

Uma máscara, uma automitologia, um mapa sem nome de lugar algum – hirto como uma pintura egípcia que, no entanto, logra acariciar o rosto de alguém &, de repente, encontra-se na rua, num corpo, envolvido em luz, andando, acordado, quase satisfeito.

Nova York, 1° de maio a 4 de julho de 1984

FEITIÇARIA


(capítulo 12)

O universo quer brincar. Aqueles que por ganância espiritual se recusam a jogar & escolhem a pura contemplação negligenciam sua humanidade – aqueles que evitam a brincadeira por causa de uma angústia tola, aqueles que hesitam, desperdiçam sua oportunidade de divindade – aqueles que fabricam para si máscaras cegas de Idéias & vagam por aí à procura de uma prova para sua própria solidez acabam vendo o mundo através dos olhos de um morto.

Feitiçaria: o cultivo sistemático de uma consciência aprimorada ou de uma percepção incomum & sua aplicação no mundo das ações & objetos a fim de se conseguir os resultados desejados.

O aumento da amplitude da percepção gradualmente bane os falsos eus, nossos fantasmas cacofônicos – a "magia negra" da inveja & da vingança volta-se contra o autor porque o Desejo não pode ser forçado. Quando o nosso conhecimento da beleza harmoniza-se com o ludus naturae,a feitiçaria começa.

Não, não se trata de entortar colheres ou fazer horóscopos, não é a "Aurora Dourada" nem um xamanismo de brincadeira, projeção astral ou uma Missa Satânica – se você quer mistificação, procure as coisas reais, bancos, política, ciência social – não esta baboseira barata da Madame Blavatsky.

A feitiçaria funciona criando ao redor de si um espaço físico/psíquico ou aberturas para um espaço de expressão sem barreiras – a metamorfose do lugar cotidiano numa esfera angelical. Isso envolve a manipulação de símbolos (que também são coisas) & de pessoas (que também são simbólicas) – os arquétipos fornecem um vocabulário para esse processo & portanto, são tratados ao mesmo tempo como reais & irreais, como as palavras. Ioga da Imagem.

O feiticeiro é um Autêntico Realista: o mundo é real – mas a consciência também o deve ser, já que seus efeitos são tão tangíveis. Um obtuso acha que até mesmo o vinho não tem gosto, mas o feiticeiro pode se embriagar simplesmente olhando para a água. A qualidade da percepção define o mundo do inebriamento – mas, sustentá-lo & expandi-lo, para incluir os outros, exige um certo tipo de atividade – feitiçaria. A feitiçaria não infringe nenhuma lei da natureza porque não existe nenhuma Lei Natural, apenas a espontaneidade da natura naturans, o Tao. A feitiçaria viola as leis que procuram acorrentar esse fluxo – padres, reais, hierofantes, místicos, cientistas & vendedores consideram a feitiçaria uma inimiga porque ela representa uma ameaça ao poder de suas charadas & à resistência de sua teia ilusória.

Um poema pode agir como um feitiço & vice-versa – mas a feitiçaria recusa-se a ser uma metáfora para uma mera literatura – ela insiste que os símbolos devem provocar incidentes assim como epifanias particulares. Não é uma crítica, mas um refazer. Ela rejeita toda escatologia & metafísica da remoção, tudo que é apenas nostalgia turva & futurismo estridente, em favor de um paroxismo ou captura da presença.

Incenso & cristal, adaga & espada, certo, túnicas, rum, charutos, velas, ervas como sonhos secos – o garoto virgem com olhar fixo num pote de tinta – vinho & haxixe, carne, iantras & rituais de prazer, o jardim de huris & sagüis – o feiticeiro escala essas serpentes & escadas até o momento totalmente saturado por sua própria cor, em que montanhas são montanhas & árvores são árvores, em que o corpo torna-se eternidade & o amado torna-se vastidão.

As táticas do anarquismo ontológico estão enraizadas nesta Arte secreta – os objetivos ao anarquismo ontológico aparecem no seu florescimento. O Caos enfeitiça seus inimigos & recompensa seus devotos... este estranho panfleto amarelado, pseudonímico & manchado de pó, revela tudo... passe-o adiante por um segundo de eternidade.

.
.
.

CRIME


(capítulo 11)

JUSTIÇA NÃO PODE SER OBTIDA por nenhuma Lei – Uma ação que está de acordo com a natureza espontânea, uma ação justa, não pode ser definida por dogmas. Os crimes defendidos nestes panfletos não podem ser cometidos contra o "si mesmo" ou o "outro", mas apenas contra a mordaz cristalização de Idéias em estruturas de Tronos & Dominações venenosas.

É isso, não crimes contra a natureza ou contra a humanidade, mas contra a ordem legal. Mais cedo ou mais tarde, o descobrimento & a revelação de ser/natureza transformam uma pessoa num bandoleiro – como se ela visitasse outros mundos &, ao retornar, descobrisse que foi declarada traidora, herege, um ser exilado.

A Lei espera até que você tropece num modo de ser, uma alma diferente do padrão de "carne apropriada para consumo" aprovado pelo Sistema de Inspeção Federal -&, assim que você começa a agir de acordo com a natureza, a Lei o garroteia & o estrangula – portanto, não dê uma de mártir abençoado & liberal da classe média – aceite o fato de que você é um criminoso & esteja preparado para agir como tal.

Paradoxo: adotar o Caos não é escorregar para a entropia, mas emergir para uma energia semelhante à das estrelas, um espécime de graça instantânea – uma organização orgânica espontânea completamente diferente das pirâmides sociais putrefatas dos sultão, muftis, cádis & carrascos.

Depois do Caos, vem o Eros – o princípio da ordem implícito no vazio do Uno inqualificável. O amor é estrutura, sistema, o único código não contaminado pela escravidão & pelo sono drogado. Precisamos nos tornar vigaristas & persuasivos para proteger sua beleza espiritual num bisel de clandestinidade, num secreto jardim de espionagem.

Não apenas sobreviva, enquanto espera que a revolução de alguém ilumine as suas idéias, não se aliste no exército da anorexia ou bulimia – aja como se já fosse livre, calcule as probabilidades, pule fora, lembre-se das regras de duelo – Fume Maconha/Coma Galinha/Tome Chá. Todo homem tem sua própria vinha & sua figueira (Circle Seven Koran, Noble Drew Ali24) – carregue seu passaporte mouro com orgulho, não fique parado no meio do fogo cruzado, proteja-se – mas arrisque-se, dance antes que fique calcificado.

O modelo social natural para o anarquismo ontológico é uma gangue de crianças ou um bando de ladrões de banco. O dinheiro é uma mentira – esta aventura deve ser possível sem ele – o resultado das pilhagens & saques deve ser gasto antes que se torne pó novamente. Hoje é o Dia da Ressurreição – o dinheiro gasto com a beleza será alquimicamente transformado num elixir. Como o meu tio Melvin dizia, melancias roubadas são mais doces. O mundo já foi recriado segundo o desejo do coração – mas a civilização é dona de todas as locações & da maioria das armas. Nossos anjos ferozes exigem que invadamos a propriedade alheia, porque se manifestam apenas em solo proibido. O Ladrão de Estrada. A ioga da clandestinidade, o assalto relâmpago, o desfrute do tesouro.

.
.
.

PORNOGRAFIA


(capítulo 10)


NA PÉRSIA EU VI que a poesia é feita para ser musicada & cantada – por uma razão simples – porque funciona.

Uma combinação perfeita de imagem & melodia coloca o público num hal (algo entre um estado de espírito emocional/estético & um transe de supraconsciência), explosões de choro, impulsos de dança – uma mensurável resposta física à arte. Para nós, a ligação entre poesia & corpo morreu junto com a época dos bardos – lemos sob influência de um gás anestesiante cartesiano.

No norte de Índia, mesmo a recitação não-musical provoca barulho & movimento, todo bom verso é aplaudido, "Bravo!" com elegantes movimentos de mãos, & rúpias são lançadas – enquanto nós ouvimos poesia como um daqueles cérebros de ficção científica em um vidro – na melhor das hipóteses, um sorriso amarelo ou uma careta, vestígios dos rituais símios – o resto do corpo longe, em algum outro planeta.

No Oriente, às vezes os poetas são presos – uma espécie de elogio, já que sugere que o autor fez algo tão real quanto um roubo, em estupro ou uma revolução. Aqui, os poetas podem publicar qualquer coisa que quiserem – o que em si mesmo é uma espécie de punição, uma prisão em paredes, sem eco, sem existência palpável – reino de sombras do mundo impresso, ou do pensamento abstrato – um mundo sem risco ou eros.

A poesia está morta novamente -& mesmo que a múmia do seu cadáver possua ainda algumas de suas propriedades medicinais, a auto-ressureição não é uma delas.

Se os legisladores se recusam a considerar poemas como crimes, então alguém precisa cometer os crimes que funcionem como poesia, ou textos que possuam a ressonância do terrorismo. Reconectar a poesia ao corpo a qualquer preço. Não crimes contra o corpo, mas contra Idéias (& Idéias-dentrodas-coisas) que sejam letais & asfixiantes. Não libertinagem estúpida, mas crimes exemplares, estéticos, crimes por amor.

Na Inglaterra, alguns livros pornográficos ainda estão banidos. A pornográfica produz um efeito físico mensurável em seus leitores. Como propaganda, ela às vezes muda vidas por revelar desejos secretos.

Nossa cultura gera a maior parte de sua pornografia motivada pelo ódio ao corpo – mas, como em certas obras orientais, a arte erótica em si mesma cria um veículo elevado para o aprimoramento do ser/consciência/glória. Um espécie de pornô tântrico ocidental poderia ajudar a galvanizar os cadáveres, fazê-los brilhar com uma pitada de glamour do crime.

Os Estados Unidos oferecem liberdade de expressão porque todas as palavras são consideradas igualmente insípidas. Apenas as imagens contam – os censores amam cenas de morte & mutilação, mas horrorizam-se diante de uma criança se masturbando – para eles, aparentemente, isso é uma invasão de seu fundamento existencial, sua identificação com o Império & seus gestos mais sutis.

Sem dúvida, nem mesmo o pornô mais poético faria o cadáver sem rosto reviver, dançar & cantar (como o pássaro do Caos chinês) – mas... imagine o roteiro de um filme de três minutos ambientados numa ilha mítica povoada por crianças fugitivas que moram nas ruínas de antigos castelos ou em cabanas-totens & ninhos construídos com detritos – uma mistura de animação, efeitos especiais, computação gráfica & vídeo – editado de forma compacta, como um comercial de fast-food...

... mas insólito & nu, penas & ossos, tendas abotoadas com cristais, cachorros negros, sangue de pombos – vislumbres de membros cor de âmbar enrolados em lençóis – rostos, cobertos por máscaras cheias de estrelas, beijando dobras macias de pele – piratas andróginos, faces abandonadas de colombinas dormindo em altas flores brancas – piadas sujas de se mijar de tanto rir, lagartos de estimação lambendo leite derramado – pessoas nuas dançando break – banheiras vitorianas com patos de borracha & pintos cor-de-rosa – Alice viajando no pó...

... punk reggae atonal para gamelão, sintetizadores, saxofones & baterias – boogies elétricos cantados por um etéreo coro de crianças – antológicas canções anarquistas, um misto de Hafiz20 & Pancho Villa, Li Po21 & Bakunin, kabir22 & Tzara – chame-o de "CHAOS – The Rock Video".

Não... provavelmente é só um sonho. Muito caro para produzir &, além disso, quem o assistiria? Não as crianças a quem ele gostaria de seduzir. A TV pirata é uma fantasia fútil; o rock, outra mera mercadoria – esqueça o gesamtkunstwerk23 malandro, então. Inunde um playground com obscenos folhetos inflamatórios – propaganda pornô, excêntricos manuscritos clandestinos para libertar o Desejo dos seus grilhões.
.
.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

MITOS DO CAOS


(CAPÍTULO 9)



Caos invisível (po-te-kitea)


Indomável, intransponível


Caos da escuridão absoluta Intocado & intocável -


-canto Maori


O Caos empoleira-se numa montanha de céu: um pássaro gigantesco, como uma asa-delta amarela ou uma bola de fogo vermelha, com seis pés & quatro asas – ele não tem rosto, mas dança & canta.


Ou o Caos é um cão negro de pêlos compridos, cego & surdo, sem as cinco vísceras.


Caos, o Abismo, é anterior a tudo, depois vem a Terra/Gaia, & então o Desejo/Eros. Desses trêssurgiram dois pares – Érebo & Noite ancestral, Éter & Luz diurna.



Nem Ser, nem Não-ser


Nem ar, nem terra, nem espaço:



o que estava escondido? onde? sob a proteção de quem? O que era a água, profunda, insondável? Nem morte, nem imortalidade, dia ou noite... mas o UNO soprado por si mesmo, sem vento. Nada mais. Escuridão envolvendo escuridão, água não-manifesta. O UNO, escondido pelo vazio, sentiu a geração do calor, tornou-se ser na forma de Desejo, primeira semente da Mente... O que estava por cima e o que, por baixo? Existiam semeadores, existiam poderes: energia embaixo, impulso em cima. Mas quem pode ter certeza? --Rig Veda Tiamat, o Oceano de Caos, expele lentamente de seu ventre Lama & Saliva, os Horizontes, o Céu & Sabedoria líquida. Esses rebentos crescem barulhentos & pretensiosos – ela pensa em destruí-los.


.


Mas Marduk, o deus da guerra babilônico, levanta-se em rebelião contra a Velha Bruxa & seus Monstros do Caos, totens infernais – o Verme, a Ogre Fêmea, o Grande Leão, o Cachorro Louco, o Homem Escorpião, a Tempestade Trovejante – dragões vestindo suas glórias como deuses -& a própria Tiamat é uma serpente marinha gigante.


.


Marduk a acusa de fazer os filhos se rebelarem contra os pais – ela ama Neblina & Nuvens, princípios da desordem. Marduk será o primeiro a reinar, a inventar o governo. Durante a batalha, ele trucida Tiamat & com o seu corpo encomenda o universo material. Inaugura o império da Babilônia -& então, com os miúdos & as tripas sangrentas do filho incestuoso de Tiamat, ele cria a raça humana para servir aos deuses para sempre & aos altos sacerdotes & reis sacramentados.


Zeus Pai & os deuses do Olimpo travam guerra contra Mãe Gaia & os Titãs, esses partidários do Caos, da velhas formas de caça & coleta, das longas andanças sem destino, da androginia & da licenciosidade das bestas.


Amon-Ra (Ser) senta-se sozinho no Oceano do Caos primordial da MADRE masturbando-se & criando todo os outros deuses – mas o Caos também se manifesta como o dragão Apophis a quem Ra deve destruir (juntamente com seu estado de glória, sua sombra & sua mágica) para que o faraó possa governar com segurança – um ritual de vitória recriado diariamente nos templos Imperiais para confundir os inimigos do Estado, da Ordem cósmica.


Caos é Hun Tun, Imperador do Centro. Um dia, o Mar do Sul, Imperador Shu, & o Mar do Norte, Imperador Hu (shu hu – relâmpago), visitaram Hun Tun, que sempre os recebeu bem. Desejando retribuir sua gentileza, eles disseram: "Todos os seres têm sete orifícios para ver, ouvir, comer, cagar etc. – mas o pobre velho Hun Tun não tem nenhuma! Vamos perfurar alguns nele!" E assim fizeram – um orifício por dia – até que, no sétimo dia, o Caos morreu.


Mas... o Caos também é um enorme ovo de galinha. Dentro dele, P’an-ku nasce & cresce por 18 mil anos – finalmente o ovo se abre, divide-se entre céu & terra, yin & yang. Então P’an-ku transforma-se na coluna que sustenta o universo – ou talvez se torna o universo (respiração >> vento, olhos >> sol & lua, sangue & fluídos >> rios & mares, cabelo & cílios >> estrelas & planetas, esperma >> pérolas, medula >> jade, suas pulgas >> seres humanos etc.).


Ou, ainda, transforma-se no homem/monstro, Imperador Amarelo. Ou transforma-se em Lao-tsé, profeta do Tao. Na verdade, o pobre velho Hun Tun é o próprio Tao.


"A música da natureza não existe além das coisas. As várias aberturas, gaitas, flautas, todos os seres vivos, juntos, formam a natureza. O ‘EU’ não pode produzir coisas & as coisas não podem produzir o ‘EU’, que existe por si mesmo. As coisas são o que são espontaneamente, não por causa de alguma outra coisa. Tudo é natural sem saber por
que o é. As 10 mil coisas tem 1o mil estados diferentes, todos em movimento como se existisse um Senhor Verdadeiro para movê-las – mas, se procuramos por evidências desse Senhor, não conseguimos encontrá-las." (Kuo Hsiang).


Cada consciência iluminada é um "imperador", cuja única forma de reinado é não fazer nada para não atrapalhar a espontaneidade da natureza, o Tao. O "sábio" não é o próprio Caos, mas um dos seus servidores leais – uma das pulgas de P’an-ku, um pedaço de carne do filho monstruoso de Tiamat. "Céu é Terra", diz Chuang-tsé, "nasceram no mesmo momento em que eu nasci, & eu & as 10 mil coisas formamos um ser único".


.


O Anarquismo Ontológico tende a discordar apenas da total quietude do taoísmo. Em nosso mundo,
o Caos tem sido destituído por jovens deuses, moralistas, falocratas, padres-banqueiros, senhores adequados para escravos. Se a rebelião provar-se impossível, pelo menos algum tipo de guerra santa clandestina deve ser iniciada. Que ela siga as bandeiras da guerra do dragão negro anarquistas, Tiamat, Hun Tun. O Caos nunca morreu.

PIROTECNIA


(Capítulo 8)

INVENTADA PELOS CHINESES, mas nunca desenvolvida para a guerra – um bom exemplo de Terrorismo Poético – uma arma usada para disparar choques estéticos em vez de matar – os chineses odiavam a guerra & costumavam entrar em luto quando os exércitos se levantavam – a pólvora era mais útil para espantar demônios malignos, deleitar crianças, saturar o ar com uma bruma de bravura & com o cheiro de perigo.


Rojões de terceira categoria da província de Kwantung, foguetes, borboletas, M-80’s, girassóis, "Uma Floresta na Primavera" – clima de revolução – acenda seu cigarro com a espoleta chamuscada de um rojão negro – imagine o ar repleto de lêmures & íncubos, espíritos opressores, policiais fantasmas.


Chame um garoto com um bastão em brasa ou um fósforo aceso – apóstolo-xamã de enredos de verão de pólvora – estilhace a noite escura com pitadas & cascatas de estrelas infladas, arsênico & antimônio, sódio & calomelano, um corisco de magnésio & um silvo estridente de picrato de potassa.


Mande brasa (negro-de-fumo & salitre) a ferro & fogo – ataque o banco ou a horrível igreja de seu bairro com velas romanas & foguetes púrpura-dourados, de sopetão & anonimamente (talvez lançados da carroceria de uma picape em movimento).


Construa estruturas entrelaçadas com vigas de metal nos tetos dos edifícios de companhias de seguro ou escola – serpente cundalini ou dragão do Caos verde-bário enrolado contra um fundo de amarelo-sódio – Não Pise em Mim – ou monstros copulando & arremessando bolas de fogo na casa de velhos batistas.


Escultura de nuvens, escultura de fumaça & bandeiras = Arte do Ar. Obras de Terra. Fontes = Arteda Água. E fogos de artifício. Não se apresente patrocinando pelos Rockefeller & com a autorização da polícia para uma audiência de amantes da cultura. Evanescentes bombas-mentais incendiárias, mandalas assustadoras inflamando-se em esfumaçadas noites suburban alienígenas nuvens verdades da peste emocional detonadas por raios vajra17 azuis de orgônio18, fogos de artifícios a laser.


Cometas que explodem com odor de haxixe & carvão radioativo – demônios do pântano & fogos-fátuos assombrando os parques públicos – falso fogo-de-santelmo piscando sobre a arquitetura da burguesia – correntes de pequenos fogos de artifício caindo no chão da Assembléia Legislativa – salamandras-elementais19 atacando conhecidos reformados de moral.


Goma-laca flamejante, açúcar do leite, estrôncio, piche, água viscosa, fogo chinês – por alguns momentos o ar é puro ozônio – uma nuvem opala de pungente fumaça de dragão/fênix se espalhando. Por um instante, o Império cai, seus príncipes & governadores fogem para sua podridão satânica & nebulosa, penachos de enxofre dos elfos atiradores de chamas queimando suas bundas chamuscadas, enquanto eles recuam. O Assassino-criança, psique de fogo, mantém o poder por uma breve noite escaldante da estrela Sírio.
.
.
.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

OS ASSASSINOS


(capítulo 7)

ATRAVESSANDO O BRILHO DO
deserto & ganhando as montanhas policromadas, nuas & ocre, violeta pardo & terracota, no alto de um vale dissecado azul, os viajantes encontram um oásis artificial, um castelo fortificado em estilo sarraceno, guardando um jardim escondido.

Como convidados de Hassan-i Sabbah, o Velho da Montanha, eles sobem os degraus cortados na pedra que levam até o castelo. Aqui, o Dia da Ressurreição veio & passou – os do lado de dentro vivem fora do Tempo profano, que é mantido a distância com lanças & veneno.


Por trás de torres crenuladas & de longas janelas talhadas, estudiosos & fedains velam em estreitas celas monolíticas. Mapas do céu, astrolábios, destiladores & retortas, pilhas de livros abertos sob a luz da manhã – uma cimitarra descoberta.

Cada um dos que entram no reino do Imã-de-seu-próprio-ser transforma-se num sultão de revelação inversa, num monarca da anulação & da apostasia. Num aposento central, entrecortado pela luz & adornado com uma tapeçaria de arabescos, eles se recostam em almofadas & fumam longos narguilés de haxixe perfumado com ópio & âmbar.

Para eles, a hierarquia do ser compactou-se num ponto adimensional do real – as correntes da Lei foram quebradas – eles terminam seu jejum com vinho. Para eles, o exterior de todas as coisas é o interior delas, sua face verdadeira revela-se diretamente. Mas os portões do jardim estão camuflados com terrorismo, espelhos, rumores de assassinos, trompe l´oeil, lendas.

Ramãs, vários tipos de amoras, caquis, a melancolia erótica dos ciprestes, rosas de Shiraz de delicadas pétalas cor-de-rosa, jardineiras com aloé & benjoim de Meca, os caules rígidos das tulipas otomanas, tapetes abertos como jardins artificiais sobre gramados verdadeiros – um pavilhão inteiro decorado com um mosaico de caligramas – um salgueiro, um riacho repleto de agriões do brejo – uma fonte sob cristais geométricos – o escândalo metafísico que são as odaliscas banhando-se os criados negros brincando de esconde-esconde, molhados, por entre a folhagem – "água, verdura, belos rostos".

Ao cair da noite, Hassan-i Sabbah, como um lobo civilizado de turbante, debruça-se no parapeito sobre o jardim & contempla o céu, estudando pequenos asterismos de heresia no ar fresco & semrumo do deserto. É verdade que nesse mito alguns discípulos aspirantes podem receber o comando de arremessarem-se do alto das muralhas para a escuridão – mas também é verdade que alguns deles vão aprender a voar como feiticeiros.

O emblema de Alamut persiste em nossas mentes, uma mandala ou circulo mágico perdido na história, mas entalhado ou impresso na consciência. O Velho passa rapidamente, como um fantasma, por dentro das tendas dos reis & dos aposentos dos teólogos, atravessa todas as trancas & passa por todas as sentinelas que usam técnicas ninja/muçulmanas já esquecidas, deixando pesadelos, estiletes sobre os travesseiros, subornos poderosos.

O perfume de sua propaganda embebe-se nos sonhos criminosos do anarquismo ontológico, a heráldica de nossas obsessões exibe as lustrosas bandeiras negras dos Assassinos... todos pretendentes ao trono de um Egito Imaginário, um contínuo espaço/luz oculto consumido por liberdades ainda não imaginadas.

.
.
.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

SABOTAGEM ARTÍSTICA


(capítulo 6)

A SABOTAGEM ARTÍSTICA ESFORÇA-SE
para ser perfeitamente exemplar mas ao mesmo tempo retém um elemento de opacidade — não propaganda, mas choque estético — pavorosamente direta ainda que sutilmente direcionada — ação-como-metáfora.

Sabotagem Artística é o lado escuro do Terrorismo Poético — criação-através-da-destruição — mas não pode servir a nenhum Partido, a nenhum niilismo, nem mesmo à propria arte. Da mesma forma que o banimento da ilusão faz com que a percepção se acentue, a demolição da praga estética adocica o ar do mundo do discurso, do Outro. A Sabotagem Artística serve apenas à consciência, à atenção, ao despertar.

A SA vai além da paranóia, além da desconstrução — a crítica definitiva — ataque físico em arte ofensiva — jihad estético. A mais leve mancha de trivial ego-icidade ou mesmo de gosto pessoal arruína sua pureza & vicia sua força. A SA não pode nunca buscar o poder — apenas liberá-lo.

Trabalhos artísticos individuais (mesmo os piores) são, em sua maioria, irrelevantes — a SA procura causar danos às instituições que usam a arte para diminuir a consciência & lucrar com a ilusão. Este ou aquele poeta ou pintor não pode ser condenado por falta de visão — mas as Idéias malignas podem ser atacadas através dos artefatos por elas geradas. A MUZAK15 é criada para hipnotizar & controlar — seu maquinário pode ser esmagado.

Queimar livros em público — por que caipiras & funcionários do governo devem ter o monopólio dessa arma? Romances sobre crianças possuídas por demônios; a lista de bestsellers do New York Times; tratados feministas sobre pornografia; livros escolares (especialmente Estudos Sociais, Moral e Cívica, Saúde); pilhas de New York Post, Village Voice & outros jornais de supermercado; compilações escolhidas de editores cristãos; alguns romances da Harlequin — uma atmosfera festiva, garrafas de vinho & baseados passados em círculo em uma clara noite de outono.

Jogar dinheiro fora na Bolsa de Valores foi Terrorismo Poético bastante razoável — mas destruir o dinheiro teria sido boa Arte Sabotagem. Atacar transmissões de TV & transmitir alguns poucos minutos pirateados de arte Caota incendiária seria um feito de TP — mas simplesmente explodir a torre de transmissão seria uma Sabotagem Artística perfeitamente adequeada. Se certas galerias & museus merecem um tijolo ocasional em suas janelas — não destruição, mas uma sacudidela na complacência — então o que dizer dos BANCOS? Galerias transformam a beleza em mercadoria, mas bancos transmutam a Imaginação em fezes e dívidas. Não ganharia o mundo um grau de beleza com cada banco que pudesse ser estremecido... ou derrubado? Mas como? A Arte Sabotagem deve provavelmente manter-se longe da política (é tão entediante) — mas não de bancos.

Não faça piquetes — vandalize. Não proteste — desfigure. Quando feiúra, concepções pobres & desperdícios estúpidos forem forçados a você, torne-se um Ludita16, jogue o sapato no mecanismo, retalie. Esmague os símbolos do Império em nome da nada além do anseio do coração pela virtude.
.

.
.

PAGANISMO

(Capítulos 5 e 6)


Ontem tivemos que falhar na postagem do capítulo 5 do livro, pois a Escola do Teatro Fúria se pôs numa excasses de tempo implacável cá na chegada em Campo Grande. Pois então receba hoje, que pra nós está mais tranqüilo, dois cápítulos de uma só vez: o 5 de ontem e o 6 de hoje:

CONSTELAÇÕES PELAS QUAIS ORIENTAR A BOA ALMA. (capítulo 5)

"Se o muçulmano entendesse o Islã ele se tornaria um idólatra" - Mahmud Shabestari Eleguá, horrendo abridor de portais com um gancho em sua cabeça & búzios como olhos, negro charuto de santeria & um copo de rum — o mesmo que Ganesh, gorducho garoto dos Inícios, com cabeça de elefante, que cavalga um rato. O órgão que sente as atrofias numinosas com os sentidos. Aqueles que não podem sentir baraka não podem conhecer a carícia do mundo.

Hermes Poimandres ensinou a animação dos eidolons, a incorporação mágica de ícones por espíritos — mas aqueles que não podem realizar este rito em si mesmos & em todo o tecido palpável do ser material herdará apenas tristeza, lixo, decadência.

O corpo pagão torna-se uma Corte de Anjos que percebem todos este lugar — este mesmo arvoredo — como um paraíso ("Se há um paraíso, certamente é aqui!" — inscrição em um portão de um jardim Mughal9). Mas o anarquismo ontológico é por demais paleolítico para escatologias — as coisas são reais, a feitiçaria funciona, espíritos da mata unos com a Imaginação, morte como uma desagradável imprecisão — a trama das Metamorfoses de Ovídio —, um épico de mutabilidade. A mitologia pessoal.

O Paganismo ainda não inventou leis — apenas virtudes. Sem sacerdócio, sem teologia ou metafísica ou moral — apenas um xamanismo universal onde ninguém atinge a real humanidade sem uma visão. Comida dinheiro sexo sono sol areia & sensmilía— amor verdade paz liberdade & justiça. Beleza. Dionísio o garoto bêbado em uma pantera — rançoso suor adolescente — Pã homem-bode abre caminho através da terra sólida até sua cintura como se estivesse no mar, sua pele incrustada de musgo & líquen — Eros se multiplica em uma dúzia de jovens caipiras nus com pés embarrados & limo de açude em suas coxas.

Raven, o trapaceiro do potlatch10, às vezes um garoto, uma velha, pássaro que roubou a lua, agulhas de pinheiro flutuando em um açude, cabeça de totem Heckle/Jeckle, corvos coristas com olhos de prata dançando na pilha de lenha — o mesmo que Semar, o corcunda albino hermafrodita marionete de sombras, patrono da revolução Javanesa.

Yemanjá, estrela azulada, deusa marinha & padroeira dos bichas — o mesmo que Tara, aspecto cinza-azulado de Kali11, colar de crânios, dançando no rígido lingam12 de Shiva13, lambendo nuvens de monção com sua língua enormíssima — o mesmo que Loro Kidul, a deusa marinha verde-jaspe javanesa, que concede o poder de invulnerabilidade a sultões através de intercurso tântriko em torres & cavernas mágicas.

Sob um ponto de vista o anarquismo ontológico é extremamente vazio, desprovido de quaisquer posses & qualidades, pobre como o próprio CAOS — mas sob outro ponto de vista ele pulula com a mesma beleza barroca dos Templos da Foda de Katmandu ou de um livro de emblemas alquímicos — esparrama-se em seu divã comendo loukoum14 & acolhendo noções heréticas, uma mão dentro de suas calças frouxas. Os cascos de seus navios piratas são laqueados de negro, as velas triangulares são vermelhas, bandeiras negras exibindo uma ampulheta alada. Um imaginário Mar do Sul Chinês, próximo de uma costa coberta por uma floresta de palmeiras, apodrecidos templos dourados dedicados à deuses de bestiários desconhecidos, ilha após ilha, a birsa como úmida seda amarela na pele nua, navegando por estrelas panteístas, hierofania sobre hierofania, luz sobre luz contra a escuridão luminosa & caótica.
.
.
.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

CRIANÇAS SELVAGENS

(capítulo 4)


O INSONDÁVEL CAMINHO LUMINOSO da lua cheia — meia-noite em meio a Maio em algum Estado americano que começa com "I", tão bidimensional que dificilmente pode-se dizer que possui alguma geografia — os raios tão prementes & tangíveis que precisas traçar as nuances para pensar com palavras.

Está fora de questão escrever para as Crianças Selvagens. Elas pensam em imagens — para eles a prosa é um código ainda não completamente digerido & ossificado, assim como nunca é completamente confiável para nós.

Você pode escrever sobre elas, para que outros que perderam a cadeia prateada possam seguir adiante. Ou escrever por elas, fazendo da ESTÓRIA & do EMBLEMA um processo de sedução dentro de tuas próprias memórias paleolíticas, um bárbaro engodo para a liberdade (caos como o CAOS o entende).

Para esta espécie do outro mundo, ou "terceiro sexo", les enfants sauvages, a fantasia & a Imaginação ainda permanecem indiferenciadas. Um BRINCAR desenfreado: ao único & mesmo tempo a fonte de nossa Arte & de todos os mais raros erotismos da raça.

Abraçar a desordem como manancial de estilo & depósito voluptuoso, ponto fundamental de nossa civilização alienígena & oculta, nossa estética conspiratória, nossa espionagem lunática — esta é a ação (vamos encarar os fatos) tanto de um artista de qualquer tipo como de alguém de dez ou treze anos de idade.

Crianças cujos sentidos clarificados lhes revela uma brilhante feitiçaria de lindo prazer que reflete algo ferino & obsceno na natureza da própria realidade: anarquistas ontológicos naturais, anjos do caos — seus gestos & odores corporais espalham a seu redor uma floresta de presença, uma completa hiléia de presciência com cobras, armas ninja, tartarugas, xamanismo futurista, incrível bagunça, mijo, fantasmas, luz do sol, ejaculações, ovos & ninhos de aves — agressão exultante contra os adultos ranzinzas daqueles Planos Inferiores tão impotentes para englobar tanto epifanias destrutivas quanto criações sob a forma de extravagâncias, frágeis mas suficientemente afiados para fatiar o luar.

E ainda assim os habitantes destas dimensões inferiores de águas revoltas realmente acreditam que controlam os destinos das Crianças Selvagens — & aqui em baixo, tais crenças nocivas efetivamente esculpem a maior parte da substância do cotidiano.

Os únicos que realmente desejam compartilhar o destino daninho daqueles fugitivos selvagens ou guerrilhas menores ao invés de ditá-las, os únicos que podem entender que acalentar & desatrelar são o mesmo ato — estes são em sua maioria artistas, anarquistas, pervertidos, hereges, um bando à parte (tanto um do outro quanto do mundo), ou capazes de se encontrar apenas como devem crianças selvagens, cravando olhares atentos através de uma mesa de jantar enquanto os adultos tagarelam por detrás de suas máscaras.

Muito jovens para estarem em uma gangue de motoqueiros —fracassados, dançarinos de rua, poetas escassamente pubescentes de cidadezinhas planas e perdidas — um milhão de fagulhas caindo dos foguetes de Rimbaud & Mogli — esguios terroristas cujas bombas espalhafatosas são condensadas de amor polimórfico & dos preciosos quinhões de cultura popular — pistoleiros punks sonhando em furar suas orelhas, ciclistas animistas deslizando na penumbra de estanho através de ruas ponteadas por flores acidentais — nudistas ciganos fora de temporada, sorridentes e dissimulados ladrões de totems de poder, escassos trocados & facas com lâmina de pantera — nós os sentimos em todos os lugares — nós publicamos esta oferta para negociar a corrupção de nossa própria lux et gaudium por sua perfeita torpeza gentil.

Compreenda: nossa realização e nossa liberação dependem da deles — não porque nós arremedamos a Família, aqueles "avarentos de amor" que mantêm reféns para um futuro banal, nem o Estado que nos educa para afundar sob o horizonte de eventos de uma "utilidade" tediosa — Não — mas porque nós & eles, os selvagens, somos imagens uns dos outros, unidos & confinados por aquela cadeia prateada que define o âmbito da sensualidade, da transgressão & da visão. Dividimos os mesmos inimigos & nossos meios de fuga triunfal são também os mesmos: um jogo delirante e obssessivo, fortalecido pelo brilho espectral dos lobos & suas crianças.
.
.
.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

O AMOUR FOU

CAPÍTULOS 2 e 3

Como o capítulo 2- Terrorismo Poético já foi publicado, colocamos cá o linque direto, http://insurretosfuriososdesgovernados.blogspot.com/2009/01/exemplos-te-terrorismos-poticos-por.html
e na seqüência o que seria o capítulo de amanhã:
.
O AMOUR FOU (capítulo 3)
NÃO É uma Democracia Social, não é um Parlamento de Dois. As atas de suas reuniões secretas lidam com significados enormíssimos mas muito precisos para a prosa. Não isso, não aquilo: seu Livro de Emblemas treme em tua mão.

Naturalmente ele caga em mestres-escola & na polícia, mas do mesmo modo zomba de liberacionistas & ideólogos: não é uma sala limpa e bem iluminada. Um charlatão topológico dispôs seus corredores & parques abandonados, seu intrincado mosaico de negro brilhante & vermelho maníaco e membranoso.

Cada um de nós tem a metade do mapa: como dois potentados renascentistas nós definimos uma nova cultura com nossa anatematizada mescla de corpos, mistura de líquidos — as costuras Imaginárias de nossa Cidade-Estado borra-se em nosso suor.

O anarquismo ontológico nunca voltou de sua primeira pescaria. Enquanto ninguém delatar para o FBI, o CAOS não está nem aí para o futuro da civilização. O Amour fou nasce apenas por acidente — seu objetivo primário é a ingestão da galáxia. Uma tramóia da transmutação. Sua única preocupação com a Família reside na possibilidade de incesto ("Crie os seus!" "Cada humano, um Faraó!") — Ó mais sincero dos leitores, minha semelhança, meu irmão/irmã! — & na masturbação de uma criança ele encontra escondida (como em um intrincado brinquedo oriental) a imagem da desagregação do Estado.

As palavras pertencem àqueles que as usam apenas até que outro alguém roube-as de volta. Os Surrealistas se desgraçaram por vender amour fou à máquina-fantasma da Abstração — em sua inconsciência, buscaram apenas o poder sobre os outros, & nisto seguiram de Sade (que queria "liberdade" apenas para brancos crescidos, para que pudessem eviscerar mulheres e crianças).


O Amour fou está saturado com sua própria estética, enche-se até as próprias fronteiras com as trajetórias dos próprios gestos, funciona com relógios angelicais, não é um destino próprio para comissários & lojistas. Seu ego evapora-se na mutabilidade do desejo, seu espírito comunal definha-se no egoísmo da obsessão.

O Amour fou envolve uma sexualidade incomum, da mesma forma que a feitiçaria exige uma consciência incomum. O mundo pós-Protestante anglo-saxão canaliza toda sua sexualidade suprimida na publicidade & divide-se em bandos que se chocam: histéricos pudicos versus clones promíscuos & antigos-ex-solteiros. AF não quer unir-se a nenhum dos exércitos, não toma partido na Guerra dos Sexos, entedia-se com oportunidades iguais de trabalho (na verdade ele recusa-se a trabalhar para viver), não reclama, não explica, nunca vota & nunca paga impostos.


AF gostaria de ver cada bastardo ("criança do amor") vir a termo e nascer — AF prospera em engenhos anti-entrópicos — AF adora ser molestado por crianças — AF é melhor que orações, melhor que sensimília3 — AF leva sua própria lua & suas palmeiras por onde quer que vá. AF admira o tropicalismo, a sabotagem, o break dance, Layla & Majnun4, os odores de pólvora e esperma.

O AF é sempre ilegal, quer esteja disfarçado como um casamento ou como uma tropa escoteira — sempre embriagado, seja no vinho de suas próprias secreções ou na fumaça de suas próprias virtudes polimórficas. Não é um tresloucamento dos sentidos, mas sim sua apoteose — não é o resultado da liberdade, mas sim sua pré-condição. Lux et voluptas
.
.
.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

1- CAOS - OS PANFLETOS DO ANARQUISMO ONTOLÓGICO- Série Obras Completas




O Teatro Fúria a partir desta segunda 16 de fevereiro, estará em Campo Grande divulgando a Escola do Teatro Fúria http://insurretosfuriososdesgovernados.blogspot.com/2008/12/escola-do-teatro-fria-funciona-em.html
Por isso, pelo amor de não se interromper as atividades do nosso BlogZine, e pelo contrário, apesar do tempo excasso, continuarmos com a revolução desalienante de vento em popa, organizamos uma programação muito prática, motivante e eficiênte: A publicação do livro Caos - Os Panfletos do Anarquismo Ontológico de Hakin Bey que publicaremos em capítulos diários de hoje até o dia 24 de fevereiro, quando retornaremos a Hell City. Dali até acolá não teremos gravura nem edição perfeita . Colocaremos nos textos as gravuras e as edições perfeitas na volta da missão.
Euforia-Anarquia-Revolução-Fúria-Fúria-Fúria!!!

CAOS
(capítulo 1)



O CAOS NUNCA MORREU.


Bloco não-lapidado primordial, único monstro venerável, inerte e espontâneo, mais ultra-violeta do que qualquer mitologia (como as sombras frente à Babilônia), a original indiferencia da unidade-do-ser ainda se irradia serena como as flâmulas negras dos Assassinos, aleatória & perpetuamente intoxicada.

O Caos surgiu antes de todos os princípios de ordem & entropia, não é nem um deus nem um verme, seus desejos insensatos circundam & definem todas as coreografias possíveis, todos os éteres & flogistons: suas máscaras são cristalizações de seu próprio rosto inexistente, como nuvens.

Tudo na natureza é perfeitamente real, incluindo a consciência; não há absolutamente nada com o que se preocupar. Não apenas os grilhões da Lei foram quebrados; eles nunca existiram: demônios nunca vigiaram as estrelas, o Império nunca se iniciou, Eros nunca deixou a barba crescer.

Não, ouça, o que aconteceu foi o seguinte: eles mentiram para ti, venderam-te idéias de bem & mal, fizeram-te perder a confiança em teu próprio corpo & sentir vergonha por teus dons de profeta do caos, inventaram palavras de desprezo para teu amor molecular, te hipnotizaram com distrações, te entediaram com a civilização & todas suas emoções usurárias.

Não há transformação, nem revolução, nem luta, nem caminho; já és o monarca de tua própria pele — tua liberdade inviolável espera para ser completada apenas pelo amor de outros monarcas: uma política de sonho, urgente como o azul do céu.

Para desfazer todos os direitos & hesitações ilusórios da história, é necessária a economia de uma lendária Idade da Pedra: xamãs ao invés de padres, bardos ao invés de senhores, caçadores ao invés de policiais, coletores dotados de preguiça paleolítica, gentis como sangue, saindo nus por aí ou pintados como pássaros, equilibrados na onda da presença explícita, o agora-e-sempre atemporal.

Agentes do caos deitam olhares flamejantes sobre qualquer coisa ou pessoa capaz de prestar testemunho à sua condição, à sua febre de lux et voluptas. Estou desperto apenas naquilo que amo & desejo ao ponto do terror: todo o resto é apenas mobília coberta, anestesia cotidiana, merda na cabeça, tédio subreptiliano de regimes totalitários, censura banal & dor inútil.

Avatares do caos agem como espiões, sabotadores, criminosos do amour fou, nem generosos nem egoístas, acessíveis como crianças, educados como bárbaros, esfolados por obsessões,
desempregados, sensualmente tresloucados, lobos angelicais, espelhos para contemplação, olhos como flores, piratas de todos os signos & sentidos.

Cá estamos nos arrastando pelas rachaduras nos muros da igreja estado escola & fábrica, todos os monólitos paranóides. Cortados da tribo por uma nostalgia furiosa, escavamos em busca de palavras perdidas, bombas imaginárias.

O último feito possível é aquele que define a percepção em si, um invisível cordão dourado que nos conecta: dança ilegal nos corredores do tribunal. Se eu te beijasse aqui eles chamariam isso de ato de terrorismo: vamos então levar nossas pistolas para a cama & acordar a cidade à meia-noite, como bandidos bêbados celebrando
com uma fuzilaria a mensagem do gosto do caos.

.

.

.